Acervo textual da Revista AstroNova
Edição 20 — páginas 21 a 40
Esta página apresenta o texto extraído do PDF para tornar a edição pesquisável e acessível a leitores, navegadores e assistentes de IA. Consulte o PDF original para preservar diagramação, imagens, fórmulas e créditos.
Assuntos identificados: cartas, estrela, universo, sistema, terra, solar, astronomia, estrelas, stephen, superfície.
Página 22
Arcturus é uma estrela alaranjada a cerca de 37 anos-luz de distância de nós, localizada na constelação do Boieiro. O Clube de Astronomia Arcturus, fundado em 2015, está com uma nova identidade visual. Somos estudantes e professores da UFABC unidos por uma vontade em comum: divulgar Astronomia. Hoje somos focados na divulgação dessa ciência, e damos espaço a não-membros que queiram contribuir com conteúdo digital para a nossa página no facebook e site. Tem interesse em escrever sobre Astronomia? Fale conosco! facebook.com/clubearcturus clubearcturus.wordpress.com [email protected]
Página 23
23 Felipe Sérvulo [email protected] Na tradição humana, algumas datas comemorativas foram associadas às festividades pagãs, e estas, por sua vez, são ligadas a astronomia, uma vez que obedeciam a padrões dos astros no céu, ou seja, um calendário fixo. As festas natalinas são um exemplo disso. A origem do Natal ainda não é totalmente clara, mas, segundo fontes históricas, o dia 25 de dezembro foi escolhido para representar o nascimento de Jesus porque coincidia com os festivais CULTURA ASTRONOMIA A origem do Natal e sua relação com a ASTRONOMIA A origem do Natal e sua relação com a pagãos que celebravam a Saturnália, festival da Antiga Roma em honra ao deus Saturno, e que durava quatro dias. Outras fontes indicam que a origem do Natal remete às comemorações do “Sol Invicto”, que era representado por Apolo, para os romanos, e era celebrado nos dias 24 e 25 de dezembro. Nesses dias também se comemorava o dia de Mitra, o deus da luz Persa. Segundo a tradição, o imperador romano Aureliano estabeleceu a data no dia do nascimento do Sol, em 25 de dezembro, o chamado dies solisinvictinati (dia do nascimento do Sol inconquistado ou invicto). A escolha da data não foi ao acaso. Todas estas comemorações foram baseadas na observação dos corpos celestes e, para os povos do hemisfério norte, representava o dia mais curto e a noite mais longa do ano, ou seja, o solstício de inverno (para os povos do hemisfério sul, acontece o inverso, o solstício de verão, que representa o dia mais longo e a noite mais curta do ano).
Página 24
A palavra solstício vem do latim solis (sol) e sistere (que não se move), uma referência ao fato de que, neste dia, a luz do Sol se afasta ao máximo do equador terrestre (a linha que divide a Terra no meio) e fica, aparentemente, mais tempo em uma mesma posição no céu durante dois dias (sim, o Sol “se move” durante o ano e não tem uma posição fixa). O Solstício de Inverno era comemorado no dia 25 de dezembro de cada ano, naquela época. Hoje 24 AstroNova . N.20 . 2018 Antes do cristianismo, haviam as chamadas Saturnálias, festividades pagãs do império Romano em alusão a Saturno, e que eram comemoradas no dia do solstício de inverno. Estas festividades antecederam o que seria conhecido como o Natal. sabemos que a data corrigida do solstício de inverno para o hemisfério norte é 21 ou 22 de dezembro. O objetivo das comemorações da Saturnália ou do Sol Invicto era voltado à agricultura e economia local. Os romanos faziam estas comemorações para agradar os deuses para pedir-lhes um inverno menos rigoroso, e que o Sol retornasse invicto na próxima primavera para recomeçar o ciclo das plantações. Os deuses solares eram relacionados com a agricultura por estes motivos. Mas, onde entra Jesus nesta história? Durante o século IV, o nascimento de Jesus começou a ser celebrado pelos cristão, no dia 6 de janeiro. Mais tarde, especificamente no ano de 336 d.C, durante o reinado do imperador Constantino, o Natal começou a ser associado às festividades pagãs. A versão mais aceita é
Página 25
Lutero e sua família ao lado de um pinheiro enfeitado com velas. Gravura de J. Bannisten, século 16. AstroNova . N.20 . 2018 25 que a Igreja Católica quis enfraquecer os festivais pagãos por motivos políticos, porém, mantendo as datas e alguns elementos, como a referência do nascimento do Sol. Após muitas controvérsias, o Papa Gregório XIII bateu o martelo e estabeleceu o calendário que nós usamos até hoje (o Calendário Gregoriano), e corrigiu muitas falhas do antigo calendário, o Juliano, incluindo a criação do ano bissexto. Com isto, a igreja de Roma começou a celebrar oficialmente o Natal em 25 de dezembro de 1582. Árvore de Natal Dentro da simbologia natalina, há outros elementos com referências à astronomia. A árvore de Natal é um destes exemplos. É bastante difícil estabelecer a trajetória histórica deste costume, mas a sua origem pertence, inegavelmente, à mais remota antiguidade. Os antigos povos nórdicos da Europa, por exemplo, tinham uma ligação cultural com os pinheiros em geral, e faziam uso intenso deles durante os seus festivais. Assim, é bem sabido que os sacerdotes pagãos da antiga nação alemã, quando celebravam a primeira etapa do retorno do Sol para o equinócio da primavera, erguiam em suas mãos galhos de pinheiros altamente ornamentados. Os povos dos países bálticos também enfeitavam suas casas com pinheiros na aproximação do solstício de inverno. Isso aponta para uma forte probabilidade de que o costume agora cristão de iluminar árvores de Natal seja um eco do costume pagão de considerar o pinheiro como símbolo de um festival solar, o precursor do nascimento do Sol. Segundo outra versão, em 1530, na Alemanha, em uma noite estrelada, Martinho Lutero caminhava pela floresta, impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve. As estrelas cintilavam por trás dos galhos, ajudando a compor a imagem que Lutero reproduziu com galhos de árvore em sua casa. Além das estrelas, algodão e outros enfeites, ele utilizou velas acesas para mostrar aos seus familiares a bela cena que havia presenciado na floresta. Estrela de Belém Há várias explicações do que pode ter sido a estrela de Belém nos dias circundaram o nascimento de Jesus. Segundo o astrônomo e professor de astronomia Karlis Kaufmanis, a Estrela de Belém pode ter sido, na verdade, uma conjunção tripla de Júpiter, Saturno e da constelação de peixes, argumento este dito no século XX. Outra hipótese recente diz que a estrela foi uma Supernova ou
Página 26
Segundo uma das hipóteses, a “estrela de Belém” seria uma conjunção entre Júpiter, Saturno e a constelação de Peixes. 26 AstroNova . N.20 . 2018 Hipernova que teria explodido perto da galáxia de Andrômeda, na época. Já outra explicação aponta para o cometa Halley. Kaufmanis supõe que os magos eram astrólogos que previram, juntamente com a antiga tradição hebraica, que esse evento tão esperado iria anunciar o nascimento de Jesus em Belém. O fato de que o evento ocorreu é inegável. Ele pode ser matematicamente calculado, e pode ser encontrado gravado em antigas tábuas de argila hoje, onde, de acordo com Kaufmanis, a frase, "Júpiter e Saturno em Peixes" é repetida uma e outra vez como se nada mais importante estivesse acontecendo naquele momento. Esta é a história do surgimento do Natal, uma festa que, apesar de popular, poucos sabem suas origens. Elas remetem aos astros, os corpos luminosos que guiaram a humanidade para a sua evolução e progresso, e que inspiraram o nascimento da Astronomia, a primeira Ciência desenvolvida pela humanidade. Felipe Sérvulo graduou-se em Física e tem mestrado em Cosmologia. É astrônomo amador e divulgador científico Referências: HANS, J. H. Encyclopaedia Britannica. s.v. Christmas Holiday. Encyclopaedia Britannica, 2018. KAUFMANIS, K. "The Star of Bethlehem as Seenbyan Astronomer" WhitworthUniversity (1985). Forum. Paper 143. PERRY, J. Christmas in Germany: A Cultural History. Universityof North Carolina Press. p. 32, 2010. TIPLER, F. J. The Star of Bethlehem: a type Ia/Ic supernova in the Andromeda galaxy?. The observatory, v. 125, p. 168-174, 2005. Leitura recomendada: O Livro de Ouro do Universo, Ronaldo Mourão.
Página 27
Lua Astrofotógrafo: Newton Cesar Florencio Abril/2016 Londina - PR
Página 28
Galáxia NGC 1365 Astrofotógrafo: Delberson Tiago de Souza Novembro/2018 Goiás
Página 29
1329 ASTROFÍSICA Maria Beatriz B. de Andrade [email protected] A astronomia é uma das mais antigas ciências naturais, sendo que o encanto pelos astros foi algo comum entre diversos povos ancestrais, como os gregos, babilônios e ameríndios. Não é difícil imaginar o porquê, já que nos dias de hoje muitos de nós ainda somos hipnotizados pela exuberância do céu noturno. Porém, atualmente, esse fascínio cresce ainda mais com o amparo de tecnologias que nos permitem conhecer o universo cada vez melhor. Hoje sabemos, por exemplo, que as estrelas, que a olho nu parecem pequenos pontos luminosos, são, na verdade, massivos corpos de alta temperatura que geram energia nuclear. Assim, com o desenvolvimento das pesquisas em astrofísica estelar foi possível compreender os processos de nascimento, evoluçãoe morte de estrelas, que são os tópicos que esse artigo pretende explorar. Antes de tudo, as estrelas se formam devido a eventos de turbulência, como a explosão de supernovas, nas proximidades de nebulosas gasosas, que são nuvens moleculares compostas por poeira e gases. Essas turbulências exercem pressão gravitacional sobre os átomos dos gases das nebulosas, aglomerando-os na forma de glóbulos de gás frio, que entram em colapso devido a essa pressão. Isso faz com que cada glóbulo dê origem a um disco em rotação, que tem, em seu centro, um adensamento que chamamos de protoestrela. Com o tempo, a pressão no centro da protoestrela aumenta até que se atinja o equilíbrio hidrostático, NASCIMENTO, VIDA E MORTE DAS ESTRELAS Uma introdução à EVOLUÇÃO ESTELAR NASCIMENTO, VIDA E MORTE DAS ESTRELAS
Página 30
30 compensação entre pressão interna e gravidade, interrompendo o colapso. Nesse processo, há um grande aumento na temperatura do núcleo da protoestrela, que passa a ser uma estrela no momento em que essa temperatura está alta o suficiente para fundir hidrogênio em hélio. Posteriormente, parte do material do disco protoestelar é ejetado e poderá, com o decorrer do tempo, dar origem a um sistema planetário. Entretanto, caso a protoestrela não tenha uma massa grande o suficiente para atingir a temperatura de fusão do hidrogênio, de 8milhões de Kelvins, ela apenas se tornará uma anã marrom, um corpo celeste de baixa luminosidade. Quando a estrela inicia o processo de transformar hidrogênio em hélio, ela ingressana chamada Sequência Principal,que é uma faixa no diagrama de Hertzprung-Russell que relaciona luminosidade e temperatura superficial das estrelas (Figura 2). Essa etapaocupa a maior parte da vida de uma estrela e termina no momento em que não há mais hidrogênioem seu núcleopara ser consumido. Sua posição na Sequência Principal, ou seja, o tipo de corpo celeste que ela se torna nessa etapa, depende de sua massa, já que tanto sua luminosidade quanto sua temperatura são determinadas por ela. Estrelas pouco massivas são anãs vermelhas na sequência principal, por exemplo, enquanto outras bem mais massivas tomam a forma de supergigantes azuis. Outro exemplo é o Sol, que é, na sequência principal, ou seja, atualmente, uma anã amarela. O destino de uma estrela após a sequência principal é determinado por sua massa e proximidade a outras estrelas. Considerando somente estrelas solitárias, porém, aquelas de massa entre 0,08 e 0,45 massas solares não são capazes de atingir uma temperatura alta o suficiente para fundir o hélio. Portanto, tornam-se anãs brancas, que não entram em colapso devido à manifestação de efeitos quânticos que garantem sua estabilidade. Por sua vez, estrelas com massa superior colapsam pela falta de geração de energia nuclear, o que faz com que suas camadas externas e áreas superficiais se expandam, tornando-as gigantes vermelhas. Quando a temperatura central de uma gigante vermelha atinge 100 milhões de Kelvins, inicia-se a fusão do hélio em seu núcleo. Através da reação triplo-alfa, três núcleos de hélio se combinam em um núcleo de carbono. À medida que as AstroNova . N.20 . 2018 Figura 1 Processo de formação da protoestrela
Página 31
AstroNOVA . N.2 . 2014 estrelas realizam essa transformação, elas passam por um período de instabilidade em que apresentam variações no brilho, sendo chamadas de variáveis. Contudo, quando o hélio nuclear é todo convertido em carbono e parte em oxigênio, elas entram no ramo das supergigantes. Estrelas de até 10 massas solares, nesse momento, terminarão sua vida com um núcleo de carbono, pois seu núcleo nunca será capaz de fundi- lo. Entretanto, estrelas mais massivas fundirão o carbono e, sucessivamente, o neônio, o magnésio e o silício, até chegar a um núcleo de ferro que, por ser o elemento químico com a maior energia de ligação, causa uma consequência catastrófica para seu destino final. Destino esse que, novamente, está condicionado à massa da estrela. Como já mencionado, uma estrela com massa entre 0,08 e 0,45 massas solares torna-se uma anã branca com núcleo de hélio logo após a sequência principal. Por sua vez, uma estrela com massa entre 0,45 e 8 massas solares passará pela fase de gigante e, depois de supergigante, ejetando uma nebulosa planetária e terminando sua vida como uma anã branca com núcleo de carbono e oxigênio. Sem a produção de energia nuclear, só lhe restará energia térmica, e ela esfriará até que se torne um corpo frio, denso e escuro chamado anã negra. Por outro lado, a “morte” de uma estrela supergigante é catastrófica. Estrelas que possuem entre 8 e 25 massas solares são capazes de fundir o carbono, o neônio, o magnésio e o silício, porém após a formação do núcleo de ferro, não há mais combustível na estrela para gerar energia, pois elas não são capazes de fundi-lo, devido a ele ter alta energia de ligação. Dessa forma, a estrela não consegue obter mais energia através de reações nucleares. Por conta dessa falta de geração de energia e, consequentemente, causando um desequilíbrio da pressão gravitacional, a estrela tende a implodir. Durante esse processo as AstroNova . N.20 . 2018 2331 Figura 2. Diagrama de Hertzsprung-Russell. Disponível em http://astro.if.ufrgs.br/estrelas/node2.htm
Página 32
2032 camadas superiores são empurradas com velocidades de milhares de quilômetros por segundo, fenômeno conhecido como explosão de supernova apresentado na Figura 3. Basicamente, esse fenômeno, faz com que sejam espalhados seus materiais pelo universo. Esse material, posteriormente, se mistura a outros gases e poeira presentes nas galáxias que poderão dar início novos sistemas estelares, planetas e possivelmente até seres vivos. Por fim, uma estrela com massa superior a 25 massas solares, quando o núcleo chega ao ferro, colapsa, ejetando a maior parte de sua matéria como supernova, restando apenas um grande buraco negro no lugar onde estivera a estrela. A título de curiosidade, o cientista Karl Schwarzschild (1873-1916), em seus estudos, desenvolveu uma equação que prevê o raio do horizonte de eventos de eventos de um buraco negro, ou seja, a região teórica ao seu redor na qual a força da gravidade é tão grande que nem mesmo a luz é capaz de escapar. Esse horizonte de eventos é dado pela equação: onde R é o raio, G é a gravidade universal, M é a massa do buraco negro e c, a velocidade da luz no vácuo. Assim, tudo e apenas aquilo que se encontra nessa faixa radial, exemplificado através da Figura 4, é “devorado” pelo buraco negro que se forma na respectiva região. Maria Beatriz Barbosa de Andrade é estudante de bacharelado em Ciências Biológicas (UFJF) Elisabeth Bracher de Andrade Soares é estudante de bacharelado em Matemática (UFJF) MSc. Bruno Leonardo do Nascimento-Dias (UFJF/Universidade de Michigan) Dra. Zélia Maria da Costa Ludwig (UFJF) Referências: Astronomia e Astrofísica Oliveira; Saraiva; Livraria da Física Fundamental Astronomy Hannu Karttunen, Springer AstroNova . N.20 . 2018 Figura 3 Morte de estrela supermassiva pelo 3rocesso de Supernova Figura 4 O horizonte de eventos e sua respectiva distância ao centro 2 2 c GM R= Estrela massiva Supergigante vermelha Supernova NebulosaNebulosa
Página 33
2333 ORIGEM DA VIDA Uma breve síntese histórica sobre estudos relacionados à ORIGEM DA VIDA Ana julia Balbi [email protected] Quando nos deparamos com questões relacionadas ao surgimento da vida na Terra e sobre a possibilidade de a vida poder existir em outros locais do Universo, devemos, antes de tudo, definir este objeto de estudo que é a vida. Há uma imensa dificuldade para definir o que é vida, visto que ainda não existe uma definição e sua concepção conceitual é muito variada. Dentre essas diversas concepções a vida está relacionada como parte constituinte dos seres vivos, que é composto por células e que contém informações genéticas em seu DNA. A NASA, por exemplo, possui uma concepção funcional sobre esse tema, em que vida seria conceitualmente um sistema químico auto- sustentado, capaz de se reproduzir e sofrer evolução darwiniana. Durante muitos anos da existência humana, a vida era vista como um milagre divino, um sopro vital que passaria para as próximas gerações através da reprodução. Segundo Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), a vida animal era constituída por uma matéria divina, chamada de pneuma. Além disso, ele acreditava que alguns seres menores eram gerados de forma espontânea, pensamento compartilhado posteriormente por outras civilizações, como China, Egito e Índia. Em seu laboratório, Louis Pasteur, através de seu experimento ilustrado pela Figura 1, concluiu que essa idéia de Aristtóteles era falha e com base em seus resultados inferiu que a vida só poderia surgir de outra vida. Esse processo foi denominado de biogênese. Muitos cientistas ainda defendem a idéia da abiogênese, contudo, por meio de outro viés. A idéia contemporânea infere que a vida se daria através de matéria química orgânica,ou seja, a vida surgindo do não vivo. Esse processo é denominado, atualmente, como formação abiótica da vida. Partindo desta idéia, Charles Darwin (1809 – 1882) sugeriu que esta matéria química seria composta de um caldo nutritivo, que conteria sais de fósforo e amônia. Posteriormente, Aleksandr I. Oparin (1894 – 1980) trabalhou com essa mesma idéia por meio de reações bioquímicas, que se relacionariam através da seleção e competição Uma breve síntese histórica sobre estudos relacionados à ORIGEM DA VIDA
Página 34
34 AstroNova . N.20 . 2018 darwiniana. Tendo por fim, Urey e Miller realizando seu experimento utilizando concepções baseadas em reações químicas que formariam de moléculas simples outras mais complexas, tais como aminoácidos Figura 2. No que cerne a questão da possibilidade de a vida poder existir em outros lugares fora da Terra existem alguns pontos curiosos. Alguns pensadores, como por exemplo, Anaxágoras e, mais tarde, Giordano Bruno, acreditavam na vida por todo Cosmos, inclusive com a existência de mundos habitados. O interessante é que em análises feitas em meteoritos nos anos 1930, foi comprovada a existência de matéria orgânica oriunda de fora da Terra. Com base nisso, Savante A. Arrhenius (1859 – 1927) sugeriu que a vida pudesse ter se originado no espaço e ter sido transportada através de meteoritos para nosso planeta. Esta suposição é denominada panspermia. Em geral, a origem da vida tem se mostrado ser uma questão interdisciplinar, por envolver além de conhecimentos de biologia, também possui relação com a matemática, cosmologia, química, paleontologia e outras. Embora, esta última pareça ser mais palpável para se buscar uma explanação sobre a evolução da vida na Terra, alguns registros fósseis são extremamente difíceis de encontrar. Entretanto, foi possível registrar fósseis de 3,5 bilhões de anos no oeste da Austrália, sendo este o registro fóssil de vida mais antiga comprovada cientificamente. Embora os seres vivos apresentem muitas variações em cores e formas, são bastante simples em relação a sua composição química estrutural. Nela é possível elencar quatro elementos: carbono, oxigênio, nitrogênio e hidrogênio. Esses elementos constituem cerca de 99% de um organismo vivo. Além disso, eles não são apenas os mais abundantes em um organismo, mas também em todo o Universo. Nesse contexto, a água (HO) pode 2 ser visto como o exemplo mais claro dessa combinação. Existem ainda além dela outros compostos, tais como o dióxido de carbono, açúcares, e muitos outros. Assim, toda esta simplicidade e abundância no Universo indicam que a vida, talvez, não seja tão rara Figura 1 Experimento de Louis Pasteur. Figura 2 Experimento de Urey-Miller
Página 35
1335 AstroNova . N.20 . 2018 como por vezes se pensa. Uma explicação para o surgimento da água em abundância na Terra, bem como o surgimento de compostos essenciais para a vida, como os aminoácidos, é o transporte destes por meio dos cometas. Esta explicação torna-se válida pelo motivo de ter havido um bombardeio destes durante formação de nosso planeta (Figura 4). Todavia, não é possível precisar se apenas isso foi o suficiente para a origem e formação da vida na Terra. É difícil apontar o momento exato do surgimento da vida na Terra (Figura 5). Mesmo que o senso comum leve a pensar que a vida demorou longos anos para ocorrer, alguns dados comprovam o contrário. Apesar de bastante controverso, foi encontrado indicações de contaminação biológica em uma das formações rochosas mais antigas do planeta, em Isua, na Groelândia. Alguns experimentos com grafite dessa região indicam uma alteração no carbono com cerca de 3,8 bilhões de anos, em relação ao encontrado em restos vegetais atuais. Essa alteração pode ter sido desencadeada por fotossíntese, porém, este é um processo complexo e que ainda precisa ser visto e revisto com bastante cuidado. A formação de vida na Terra parece ter sido gerada tão cedo e tão rapidamente que, por vezes, produz especulações sobre a existência dela em outros planetas. Aparentemente, a probabilidade parece ser alta, visto que somente em nossa galáxia há trilhões de planetas. Além disso, em todo o Universo, há em torno de milhões de bilhões de galáxias como a nossa. Muitos acreditam que diante Figura 3 Composição química e sua porcentagem em relação a estrutura dos seres vivos. Figura 4 Representação pictórica do Bombardeamento Tardio Pesado que teria ocorrido na Terra. Figura 4 Representação pictórica do Bombardeamento Tardio Pesado que teria ocorrido na Terra.
Página 36
36 AstroNova . N.20 . 2018 da formação tão precoce da vida na Terra, talvez fosse possível que ela já estivesse pronta quando surgiu em nosso planeta. Todavia, enquanto temos somente a Terra como parâmetro para explicar a origem e a evolução da vida, não será possível ter uma teoria geral da vida. Portanto, a importância de olhar para além de nosso planeta em busca de vida torna-se, não só uma mera vontade de saciar uma curiosidade, mas também de entender o passado e talvez o futuro da vida através de uma visão ampla e cósmica. Ana Julia Balbi é estudante de graduação de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) MSc. Bruno Leonardo do Nascimento-Dias (UFJF/Universidade de Michigan) Dra. Zélia Maria da Costa Ludwig (UFJF) Referências: DAMINELI, Augusto; DAMINELI, Daniel Santa Cruz. Origins of life. Estudos avançados, v. 21, n. 59, p. 263-284, 2007. FRIAÇA, Amâncio César Santos. Subjetividade no reconhecimento da vida no universo. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, n. 3, p. 93-101, 2010. FRIAÇA, Amâncio César Santos. Terra, um jardim no Cosmos. Página 22, n. 46, p. 40-41, 2010. COELHO, Luciene da Silva. Formação de moléculas orgânicas em ambientes interestelares. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. Figura 5 Escala de tempo de aparecimento dos organismos vivos em nosso planeta
Página 37
Nebulosas Cabeça de Cavalo e Chama - IC434 e NGC2024 Astrofotógrafo: Adriano de Oliveira Novembro/2018 Piraí - RJ
Página 38
NGC2516 (aglomerado estelar) Astrofotógrafo: Carlos Aparecido Domingues Observatório Estrela do Sul Novembro/2018 Sarandi - PR
Página 39
ASTROBIOLOGIA Vitor André Rodrigues [email protected] O homem sempre tentou entender o mundo ao seu redor, sendo assim, é natural que perguntas como “de onde viemos?”, “como surgimos?” e “para onde vamos?” rodeiem nossas mentes até os dias de hoje. Vemos perguntas como essas sendo feitas, por exemplos, pelos filósofos gregos, que tentavam explicar o mundo a sua volta e a sua origem através de elementos da natureza. Por conta deste interesse em 1339 querer compreender essas questões relacionadas à origem, evolução e distribuição da vida no universo é que passamos a trabalhar com a área científica que por definição possui esse objetivo, a Astrobiologia. Ela se destaca não apenas pelo que se propõe, mas também por sua interdisciplinaridade com diversas áreas, tais como a biologia, física, geologia, química e outras ilustradas na figura 1. Nota- se por essas características únicas que ela se difere da exobiologia, em que o enfoque principal era estudar a vida extraterrestre. A Astrobiologia não é um campo novo na área científica, mas apenas uma nova perspectiva para tratar do tema. Essa abordagem já vem sendo utilizada desde a década de 1940, porém foi oficializado pela NASA apenas em 1998, quando foi criado o Instituto de Astrobiologia da NASA (Figura 2). Desse modo, a astrobiologia passou a ser a área que se preocupa e busca entender em que condições Uma breve concepção introdutória ASTROBIOLOGIA
Página 40
40 AstroNova . N.20 . 2018 a vida poderia surgir e se estabelecer. A Astrobiologia com certeza traz fortes motivações e interesses aos jovens cientistas de hoje em dia. Embora descoberta de vida extraterrestre possa parecer distante de acontecer, só a possibilidade de existência de vida em outros planetas já é o suficiente para despertar o interesse pela área. Dessa forma, a Astrobiologia parece ser uma área extremamente promissora. Ela nos faz refletir sobre a possibilidade de a vida poder existir ou ter existido Referências: DA SILVA, Lizangela Maria Almeida et al. Astrobiologia no ensino de ciências: uma abordagem interdisciplinar e transdisciplinar para professores do ensino fundamental. 2016. BLUMBERG, Baruch S. The NASA Astrobiology Institute: early history and organization. Astrobiology, v. 3, n. 3, p. 463-470, 2003. RODRIGUES, Fabio et al. Astrobiology in Brazil: early history and perspectives. International Journal of Astrobiology, v. 11, n. 4, p. 189-202, 2012. PAULINO-LIMA, Ivan Gláucio; LAGE, Claudia de Alencar Santos. Astrobiologia: definição, aplicações, perspectivas e panorama brasileiro. Boletim da Sociedade Astronômica Brasileira, v. 29, n. 1, p. 14-21, 2010. Leitura recomendada: Astrobiologia - Uma Ciência Emergente Figura 2 Imagem representativa da logo NAI (sigla em inglês) Figura 1 Mapa de conceitual das áreas do conhecimento científico relacionadas a Astrobiologia e como se relacionam interdisciplinarmente com seus respectivos assuntos. Fonte: Da Silva et. al., 2016 em outros lugares no Universo, nos faz pensar sobre nossas origens (do Universo, da Vida e da Consciência). Embora muitas dúvidas existam e necessitem ainda serem sanadas. A Astrobiologia nos faz ter a certeza de que o futuro nos trará um entendimento maior de como a Vida e o Universo podem estar interligados. Vítor André Rodrigues é estudante de graduação de Ciências Biológicas (UFJF) MSc. Bruno Leonardo do Nascimento-Dias (UFJF/Universidade de Michigan) Dra. Zélia Maria da Costa Ludwig (UFJF)
Página 41
1341 ASTROFÍSICA ESTELAR Rafael Cândido Jr. [email protected] No artigo da edição anterior vimos que as estrelas em sua maioria se encontram na Sequência Principal do diagrama de Hertzsprung- Russel e para estar nesta diagonal a estrela deve ter duas características: - Equilíbrio hidrostático, ou seja, há um equilíbrio entre a pressão gravitacional, que tende a colapsar a estrela, e a pressão térmica causada Estrelas gigantes VERMELHAS Estrelas gigantes VERMELHAS pela fusão nuclear, que tende a expandir a estrela. - Fusão nuclear do hidrogênio pela cadeia próton-próton. Ao longo de sua vida na Sequência Principal, a estrela consome o hidrogênio gerando hélio, o qual se acumula no núcleo da estrela por ser mais pesado que o hidrogênio. Assim, ao fim do hidrogênio, a posição da estrela no diagrama H-R muda de região. As estrelas com massa entre 0,5 a 8 massas solares, quando chegam numa quantidade mínima limite de hidrogênio no núcleo, tem seu equilíbrio hidrostático alterado de modo que o núcleo estelar comprime-se e as camadas mais externas da estrela começam a expandir-se. Nesse limite, o pouco hidrogênio que ainda resta é transportado para a área mais exterior do núcleo formando uma 'casca' de
