Acervo textual da Revista AstroNova
Edição 23 — páginas 21 a 40
Esta página apresenta o texto extraído do PDF para tornar a edição pesquisável e acessível a leitores, navegadores e assistentes de IA. Consulte o PDF original para preservar diagramação, imagens, fórmulas e créditos.
Assuntos identificados: estrela, sistema, terra, horas, astronomia, episódio, tempo, estrelas, relógio, exoplaneta.
Página 22
Relógio Estelar Da mesma forma que a posição do Sol e da Lua podem fornecer o horário, o movimento das estrelas na esfera celeste também fornecem informações a partir das quais podemos inferir a hora local. O princípio de funcionamento é relativamente simples: se observarmos por algumas horas o céu noturno notaremos que, por exemplo, a constelação do Cruzeiro do Sul parece girar no sentido horário em torno de um ponto de rotação - o Pólo Celeste Sul; conforme o tempo passa, o Cruzeiro de Sul (e todas as estrelas circundantes) giram circularmente em torno deste pólo. Cada hora deste dia, portanto, corresponde a uma posição do Cruzeiro do Sul no céu. Este movimento é conseqüência da rotação da Terra, vista daqui da perspectiva da superfície do nosso planeta (figura 7). Porém, o movimento de revolução da Terra em torno do Sol deve ser considerado. Se fixarmos uma posição do Cruzeiro do Sul em determinado horário, notaremos que no mesmo horário da noite seguinte o Cruzeiro do Sul estará cerca de 1º adiantado. É a conseqüência do movimento aparente anual da esfera celeste. Desta forma, uma estrela ou constelação (nesse exemplo a constelação do Cruzeiro do Sul) ocupa uma posição específica do céu a cada horário de cada dia do ano. O ciclo se repete no ano seguinte. Isto então pode ser mapeado num instrumento circular que tome como ponteiro uma estrela ou constelação de referência. Um instrumento assim concebido para fornecer a hora local é um Relógio Estelar (figura 8). É importante ressaltar que nem sempre nossa constelação estrela ou de referência (neste caso o AstroNova . N.23 . 2019 Figura 7 - Simulação mostra o Cruzeiro do Sul e sua mudança de posição ao longo de 7h. Simulação feita com o software Stellarium, com intervenção do autor. 22 Figura 8 - Relógio Estelar. O ponteiro deve ser fixado na data indicada no disco. Em seguida o conjunto, com sua face posterior para o Sul, deve ser girado de tal forma que o ponteiro se alinhe no sentido do Cruzeiro do Sul. A leitura do horário é realizada no círculo mais externo do disco. (Neves, M.C.D, 1999)
Página 23
23 Cruzeiro do Sul) estará disponível no céu noturno devido ao movimento aparente anual da esfera celeste. Neste caso outra constelação ou estrela de referência deve ser escolhida. A estrela Achernar é uma boa opção, pois tem magnitude que lhe dá destaque no céu, ou seja, brilha mais que as estrelas de sua vizinhança. Isso possibilita sua fácil localização no firmamento. Além disso Achernar se encontra em posição quase que diametralmente oposta ao Cruzeiro em relação ao Pólo Celeste Sul, constituindo assim presença garantida no caso daquela constelação estar abaixo do horizonte (figura 9). Entretanto, a leitura da hora local continua sendo feita a partir do ponteiro que aponta para o Cruzeiro do Sul, como indica a figura 10, com ambos os ponteiros posicionados em posições diametralmente opostas. PARA CONSTRUIR SEU RELÓGIO ASTRONÔMICO A página Recursos de Física, mantida pelo prof. Ricardo Pereira, disponibiliza material em PDF para impressão em cartolina e montagem de vários tipos de relógios astronômicos didáticos. Uma ótima opção lúdica e educacional para aprender astronomia também na prática. Acesse em: Wilson Guerra é astrônomo amador e professor. Graduou-se em Física, tem especialização em Astrobiologia e é mestre em Educação Científica. Referências MOURÃO, ROGÉRIO; Manual do Astrônomo; 2001 LANGHI, RODOLFO; Aprendendo a ler o céu; Livraria da Física, 2016 AstroNova . N.23 . 2019 Figura 9 - Cruzeiro do Sul, a estrela Achernar e o Pólo Celeste Sul, em simulação do software Stellarium, com intervenção do autor. Figura 10 - Na ausência do Cruzeiro do Sul, o contraponteiro deve ser usando para localizar a estrela Achernar. A leitura do horário continua sendo feita pelo ponteiro do Cruzeiro do Sul (Neves, M.C.D, 1999). www.recursosdefisica.com.br GAEA: gaea-astronomia.blogspot.com MAST: Museu de Astronomia e Ciências Afins
Página 24
26 AstroNova . N.22 . 2019 Educação científica 24 horas por dia! Biologia, Ecologia, Geologia, Astronomia, Evolução, Genética e muito mais! Educação científica 24 horas por dia! Biologia, Ecologia, Geologia, Astronomia, Evolução, Genética e muito mais! www.facebook.com/academiadecienciasnaturaiswww.facebook.com/academiadecienciasnaturais Academia de Ciências Naturais Academia de Ciências Naturais Academia de Ciências Naturais Academia de Ciências Naturais
Página 25
1325 DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA Nos dias 2 e 3 de setembro foi realizado o V Encontro de Astrobiologia do NUPESC, Núcleo de Pesquisas de Ciências. O evento aconteceu no Centro de Ciências da Saúde na UFRJ e contou com a presença de vários estudantes de Astronomia, Física, Química, Biologia e áreas correlatas. O evento iniciou com a mesa redonda “Dilemas éticos na exploração e terraformação de Marte”, com os professores Gustavo Porto V Encontro de Astrobiologia (UFRJ) e Alexey Dodsworth (USP e Ca’Foscari). Um tema tão amplo que até mesmo questões sociológicas e antropológicas foram levadas em consideração sobre este assunto. A seguir veio a palestra da professora Eliane Guedes sobre Vulcanismo e as extinções em massa, na qual foram faladas sobre as grandes extinções da vida na Terra e suas correlações com eventos vulcânicos cataclísmicos. Por ser do Museu Nacional e estar presente no fatídico dia do incêndio, a professora comentou sobre o que vem sendo feito para o encontro e a preservação do que restou do acervo. Logo depois o professor Bruno Rezende (UFMG) apresentou a palestra Neurociência e Fisiologia das emoções. Nesta palestra foram apresentadas informações sobre o funcionamento dos nossos cérebros, se há alguma diferença entre nossa forma de organizar ideias em AstrobioNUPESC
Página 26
28 AstroNova . N.23 . 2019 relação a outros primatas e interessantes vídeos mostrando a influência que lesões cerebrais podem ter na forma como humanos obtém informações e interagem com o mundo ao seu redor. O primeiro dia encerrou com uma palestra da professora Natália Amarinho, do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), apresentando noções fundamentais sobre a Evolução estelar. Como muitos participantes vinham da área das Ciências Biológicas, a palestra trouxe o primeiro contato com este assunto. O segundo dia iniciou com a palestra Marte: uma história contada pelos viajantes interplanetários, na qual o professor Bruno Dias (UFJF) apresentou sobre a possibilidade de haver troca de substâncias orgânicas, como aminoácidos, entre planetas, através de meteoritos. Posteriormente, a palestra do professor Luan Ghezzi (UFRJ/Observatório do Valongo) sobre Exoplanetas e a Habitabilidade Planetária apresentou as atuais pesquisas sobre exoplanetas e onde é mais provável que sejam encontrados planetas semelhantes à Terra. Também foi relembrada a palestra do dia anterior sobre Evolução estelar citando as diferenças das zonas de habitabilidade conforme o tipo de estrela. A segunda mesa redonda, intitulada Discutindo os termos vida e inteligência da Equação de Drake, foi composta pelos professores Bruno Rezende e Bruno Dias. Eles trouxeram um debate
Página 27
importante sobre o que é consciência, o que é vida, quais considerações podemos fazer acerca do que é a inteligência artificial e o quanto nós somos influenciados em nosso temperamento pelos microrganismos que habitam nosso corpo. Para encerrar o evento, a última palestra foi sobre Microbiologia de Alimentos na Estação Espacial Internacional, proferida pelo professor Leandro Lobo (UFRJ). Nesta palestra foram apresentados os problemas referentes à contaminação bacteriológica na ISS proveniente da biota presente no organismo dos astronautas e até mesmo na alimentação. Esperamos que no próximo ano tenhamos o sexto evento de Astrobiologia. Todos os presentes defenderam a importância do investimento público nas universidades federais para a continuidade das pesquisas. A equipe da Astronova agradece imensamente aos organizadores do evento pela recepção e pela oportunidade de divulgar a revista ao final do evento. Rafael Cândido Jr. é membro fundador do grupo Arcturus. É graduado e mestre em Engenharia Química (USP) e doutorando em Engenharia Aeroespacial (ITA). Fotos de Bruna Mayato e Rafael Cândido 35 AstroNova . N.23 . 2019
Página 28
www.grupocentauro.org Grupo Centauro de Astronomia Amadora Dois Vizinhos - Maringá (PR) divulgando a beleza do Universo revelada pela Ciência 1 AnosHá3
Página 29
1329 ENSINO DE ASTRONOMIA Michel Corci Batista [email protected] Objetivo de Ensino com a sequência didática Promover nos alunos uma reflexão sobre o tema estrelas, permitindo que o senso comum se torne científico. Desenvolvimento da sequência didática Inicialmente o professor apresentra uma situação onde os alunos devem expressar por meio de um desenho a representação de uma estrela. Quem nunca fez um pedido ao ver uma “estrela cadente”? É muito comum vermos, em noites estreladas, as chamadas “estrelas cadentes”, assim como é comum lembrarmos, que ao vermos estes corpos cruzando os céus, temos que fazer um pedido. Na verdade estrelas cadentes não passam de um fenômeno luminoso que acontece na atmosfera terrestre ocasionada pelo atrito entre corpos sólidos vindos do espaço, os chamados meteoritos. "imagine que você, nessa noite estrelada possa realizar uma viagem espacial e passear por entre as estrelas. Após o belo passeio você retorna para casa e o que resta é a lembrança e o fascínio pelas estrelas, então, para que fique registrado para todas as gerações futuras represente nesse pedaço de papel a beleza da estrela que você pode observar de perto." Essa primeira atividade busca apenas verificar o conhecimento que os alunos já trazem sobre a forma de uma estrela. Em seguida, recolhe-se a representação dos alunos e faz-se um novo questionamento, agora sobre o Sol: O Sol é uma estrela? Esse questionamento deve ser respondido em uma folha apenas como sim ou não. Na mesma folha os alunos devem fazer uma representação do Sol. Esta etapa tem por objetivo verificar se os alunos reconhecem o Sol como uma estrela, buscando comparar as duas representações feitas por eles. Após os alunos terem feito a representação do Sol, o professor entrega uma nova folha agora com duas estrelas em branco e solicita UMA SEQUÊNCIA PARA ENSINAR SOBRE AS DIDÁTICA CRIANÇAS ESTRELAS
Página 30
que os alunos pintem as duas estrelas, sabendo apenas que uma estrela possui temperatura mais elevada que a outra. O objetivo desta etapa da atividade é verificar como os alunos relacionam cor com temperatura. Inicia-se uma discussão sobre luz e calor (emitidos pelo Sol), nessa discussão deve emergir conceitos como: Cor de uma estrela; Brilho de uma estrela; Dimensões das estrelas; Distâncias astronômicas; Após a discussão pergunta-se qual a grandeza do Sol, com o intuito de verificar com a turma, que relação eles estabelecem para o tamanho e brilho do Sol. Ao final da atividade o professor propõe um estudo das constelações, para iniciar esse estudo assiste-se um vídeo da série ABC da astronomia intitulado "Constelações", disponível no YouTube, ou atráves do link abaixo: www.youtube.com/watch?v= y46inMdFbWM Após assistir e discutir o vídeo os alunos podem como processo de avaliação produzir uma história em quadrinho utilizando os conceitos discutidos nessa atividade. ABC da Astronomia é uma série de 30 episódios apresentando os principais conceitos da Astronomia. A cada programa, o professor e Astrônomo Walmir Cardoso apresenta um tema derivado de uma letra do alfabeto. Animações, fotos espaciais e imagens de arquivo complementam a viagem espacial que traz como grande diferencial o ponto de vista do hemisfério sul. Abaixo estão os nomes dos programas, que podem ser assistidos pela internet, no YouTube. Episódio 01 - Astronomia Episódio 02 - Ano Luz Episódio 03 - Big Bang Episódio 04 - Cruzeiro do Sul Episódio 05 - Distâncias Episódio 06 - Estrelas Episódio 07 - Fases da Lua Episódio 08 - Galáxias Episódio 09 - Heliocentrismo Episódio 10 - Invisível Episódio 11 - Júpiter Episódio 12 - Kepler Episódio 13 - Lua Episódio 14 - Meteoros Episódio 15 - Noite Episódio 16 - Observatórios Episódio 17 - Planetas Episódio 18 - Quadrante Episódio 19 - Rotação e Revolução Episódio 20 - Sol Episódio 21 - Terra Episódio 22 - Universo Episódio 23 - Via Láctea Episódio 24 - Wolf Episódio 25 - Raios X Episódio 26 - Yuri Gagarin Episódio 27 - Zodíaco Episódio 28 - Constelações Episódio 29 - Vida Episódio 30 - Buracos Negros DICA AOS PROFESSORES 30 AstroNova . N.23 . 2019
Página 31
PELA PRODUÇÃO E DIFUSÃO CIENTÍFICAPELA PRODUÇÃO E DIFUSÃO CIENTÍFICA CEARÁ - BRASILCEARÁ - BRASIL
Página 32
www. RECURSOSdeFÍSICA .com.br Página que socializa produção de recursos de ensino adaptados à sala de aula e aos professores. Material produzido nas disciplinas do curso de Licenciatura em Física da UEM e em outros projetos coordenados pelo prof. Dr. Ricardo Francisco Pereira.
Página 33
Wilson Guerra [email protected] Como a questão sobre a Vida no universo leva em conta um lugar para que ela possa surgir e evoluir, a procura por exoplanetas (planetas fora do Sistema Solar, que orbitam outras estelas) é o primeiro e inevitável passo a ser dado. Mas não basta procurar por exoplanetas quaisquer. É necessário procurar por aqueles que dêem condição da Vida surgir, evoluir e se desenvolver. Quando essas condições tem grande chance de estarem presentes, dizemos que o 1333 ASTROBIOLOGIA exoplaneta é potencialmente habitável. Exoplaneta potencialmente habitável Nossa única referência de Vida é a da Terra. Aqui, a água no estado líquido é fundamental para QUALQUER ser vivo. É na água que se encontra o meio reacional adequado para ocorrer o metabolismo que fornece a energia e a manutenção estrutural da célula, a unidade básica da Vida. A água pode existir no estado líquido aqui porque a temperatura média da Terra é de 27º C. Em temperaturas negativa, só haveria gelo. No extremo oposto, ou seja, acima de 100ºC, só existiria na forma de vapor. O que mantém a água líquida na Terra é o fato de sua temperatura média ficar entre esses dois extremos - de 0 a 100 graus. O fator determinante na temperatura média de nosso planeta é a energia que recebe de nossa estrela, o Sol. A Terra não está nem tão afastada, para as temperaturas ficarem negativas, nem tão próxima, para que fiquem superiores a 100ºC. Assim, a Terra está na Zona Habitável do Sol (figura 1). Além de orbitar o Sol na zona habitável, nosso "pálido ponto azul" Concepção artística de Próxima b, exoplaneta potencialmente habitável (www.eso.org) Palco da Vida no Universo HABITÁVEIS EXOPLANETAS POTENCIALMENTE HABITÁVEISHABITÁVEIS
Página 34
Centro de Massa Na prova do "lançamento de martelo", o atleta e o peso giram em torno do centro de massa. Se o planeta for suficientemente grande, o giro da estrela em torno do centro de massa é perceptível. Ao detectar o "balanço" da estrela, os astrônomos podem estimar a massa do explaneta que nela orbita. Figura 2 - Astrometria Imagem: University of Wisconsin-Madison Department of Astronomy - www.astro.wisc.edu 34 AstroNova . N.12 . 2016 apresenta uma estrutura rochosa, com superfície firme e definida. Nela a Vida pôde se apoiar e evoluir. Se os astrobiólogos procuram pela Vida como a conhecemos em planetas fora do Sistema Solar, é preciso que o exoplaneta tenha estas duas características: orbite a zona habitável de sua estrela e seja rochoso como a Terra, e não gasoso como Saturno e Júpiter. Um exoplaneta potencialmente habitável é aquele que possui estes dois requisitos. Detecção de exoplanetas Exceto em casos muito especiais, não é possível observar diretamente um exoplaneta com a tecnologia atual de telescópios. Todavia, há vários métodos indiretos para atestar a existência de planetas orbitando uma estrela. Em meados da década de 1990 os primeiros exoplanetas começaram a ser detectados. O método usado é conhecido como Astrometria. Nele, os astrônomos medem o "balanço" que a estrela recebe devido a atração gravitacional mútua com o planeta. Se o planeta tiver massa suficiente, seu "puxão" na estrela pode observado na forma de oscilações regulares em torno do centro de massa do sistema (figura 2). Infelizmente, a condição para o método astrométrico é sua limitação: exoplanetas de grande massa. Assim, este método costuma detectar apenas objetos gigantes, tipo Júpiter. Outra forma de detectar o balanço gravitacional que o exoplaneta produz na sua estrela é pelo efeito Doppler. Este efeito provoca a mudança na frequência de uma informação de natureza ondulatória cuja fonte esteja em movimento. É como acontece na mudança do som de uma ambulância quando o veículo se aproxima de nós e quando se afasta. Ao se aproximar, o som da sirene parece mais agudo, enquanto que ao se afastar o Figura 1 - A Zona Habitável no Sistema Solar
Página 35
Imagem: University of Wisconsin-Madison Department of Astronomy - www.astro.wisc.edu Os desvios na frequência da luz recebida da estrela dizem o quanto ela gira, e que tipo de explaneta provocou o movimento. Figura 3 - Efeito Doppler 1335 som fica mais grave. Tal como o som, a luz também se comporta com uma onda - neste caso, uma onda eletromagnética. Assim, se uma fonte de luminosa aproxima, sua luz fica "mais aguda": dizemos que ela tende para o azul (maior frequência). Se a fonte luminosa se afasta, sua luz fica "mais grave": tende para o vermelho (menor frequência). Medindo estes desvios na luz de um estrela que oscila, os astrônomos podem estimar a velocidade da estrela e assim determinar que tipo de planeta está provocando esse movimento (figura 3). Contudo, este método AstroNova . N.12 . 2016 Imagem: University of Wisconsin-Madison Department of Astronomy - www.astro.wisc.edu Figura 4 - Astrometria dificilmente detectaria planetas rochosos de pequena massa como a Terra, pois o efeito Doppler proporcionado por planetas de pequena massa são inferiores aos limites mínimos de detecção. O método mais promissor para se detectar exoplanetas pequenos e rochosos como a Terra chama-se Fotometria. Ele se baseia no trânsito do exoplaneta em sua estrela central, ou seja, a passagem na frente do disco brilhante do astro. Cada passagem obstrui parte do brilho da estrela, que pode ser minunciosamente medido pela atual tecnologia de telescópios . O percentual de diminuição do brilho detectado da estrela durante o trânsito bem como o início e o fim do processo dão informações suficientes para se determinar a massa, o tamanho, o período de revolução e a posição do exoplaneta em relação à sua estrela. A clareza da medida é tão boa que exoplanetas pequenos como a Terra e Marte podem ser inequivocadamente identificados. O telescópio espacial Kepler, lançado com o objetivo de identificar exoplanetas, utiliza o método fotométrico de detecção. Atualmente ele opera com restrições, e mesmo assim tem encontrado centenas de exoplanetas, que soma-se aos milhares já detectados quando funcionava bem. Explanetas potencialmente habitáveis já detectados O número de exoplanetas confirmados cresce a todo momento. Telescópios de todo o mundo estão confirmando suas existências desde a década de 1990, quando os métodos estavam bem desenvolvidos e a resolução dos telescópios começaram a atingir precisão suficiente. Hoje são mais de 3.500 exoplanetas confirmados distribuídos (figura 4) O trânsito provoca a redução no brilho da estrela, e dá pistas sobre dados do exoplaneta. L - luminosidade da estrela DL - redução da luminosidade R - raio do planeta P R - raio da estrela E 2 ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? E P R R L L
Página 36
Concepção artística de Kepler-186f (NASA) A "Tabela Periódica" dos Exoplanetas. Potencialmente habitáveis já somam 55. Fonte: http://phl.upr.edu AstroNova . N.12 . 2016 36 em mais de 2.600 sistemas, desde estrelas mais próximas até a alguns milhares de anos-luz de distância de nós. Vários dos sistemas são multiplanetários, e alguns tem até mais de uma estrela central! Desta lista toda, aproximadamente 50 deles parecem ter condições de abrigar a Vida como a que conhecemos. Seus tamanhos variam desde exoplanetas quase do tamanho da Terra à "superterras", com mais que o dobro do diâmetro de nosso planeta. Vejamos as características conhecidas até agora de alguns deles. Kepler-186-f: o mais parecido com o tamanho da Terra Este exoplaneta é apenas 10% maior que a Terra e está a 1.500 anos-luz de nós. Orbita uma estrela anã vermelha. Como o brilho desta estrela é bem menor que o do Sol, sua zona habitável também fica mais próxima. A proximidade da estrela também pode obrigar o exoplaneta a ter sua rotação em torno de si mesmo sincronizada com o movimento de revolução em torno da estrela. Isso faria com que Kepler-186f esteja sempre com a mesma face voltada para a estrela, podendo-a aquecer muito. A face oposta ficaria sempre na região noturna, resfriando-a. A fronteira entre o dia e a noite eterna deste mundo poderia ter então temperaturas amenas.
Página 37
Mas ainda há muito para se pesquisar. Uma atmosfera densa e ativa poderia distribuir a energia térmica deste exoplaneta, uniformizando mais a temperatura (isso ocorre na Terra) e talvez dando condições da existência da Vida em uma área maior. Kepler-462b, exoplaneta que orbita uma sósia solar Este exoplaneta está a 1.400 anos-luz de nós. É 60% maior que a Terra e está definitivamente na zona habitável de sua estrela. Um detalhe interessante é que a estrela é uma "sósia" ou "gêmea solar", ou seja, é muitíssimo parecida com nosso Sol (tamanho, temperatura superficial, fluxo de luz e calor etc). Isso torna as chances de habitabilidade de kepler- 462b muito mais interessantes, pois o paralelo com a Terra é muito maior. Gliese 667Cc, exoplaneta de um sistema triplo Este exoplaneta está relativamente próximo de nós, a 22 anos-luz. Ele é pelo menos 4 vezes maior que a Terra, provavelmente constituindo como se constuma dizer, uma superterra. Ele orbita uma estrela vermelha de brilho bem mais fraco que nosso Sol, portanto menos quente. Porém esta órbita é muito pequena, o que garante sua posição na zona habitável estelar. O detalhe curioso é que há mais duas estrelas gravitacionalmente ligadas ao sistema, fazendo de Gliese 667Cc um exoplaneta de um sistema triplo de estrelas! Proxima b, um exoplaneta habitável na vizinhança? Este exoplaneta é um pouco maior que a Terra e orbita a zona habitável da estrela anã vermelha Proxima Centauri. A descoberta, feita pelo ESO (Observatório Sul- Europeu, no Chile), apresenta duas interessantes peculiaridades. Primeiro que 1337 AstroNova . N.12 . 2016 Concepção artística de Kepler-186f (NASA) Ilustração artística do exoplaneta Gliese 667 Cc. (ESO)
Página 38
Concepção artística mostra o planeta Proxima b em órbita da estrela anã vermelha Proxima Centauri. A estrela dupla Alfa Centauri AB também pode ser vista na imagem entre o planeta e Proxima Centauri - Crédito: ESO/M. Kornmesser AstroNova . N.12 . 2016 38 o método de detecção desta estrela não foi o fotométrico, normalmente usado para esse tipo de descoberta. Proxima b foi encontrado graças ao efeito doppler que seu balanço gravitacional imprime na estrela Proxima Centauri. Isto foi possível pela baixa massa da estrela. A segunda e mais interessante peculiaridade é que Proxima Centauri é a estrela mais próxima do Sistema Solar, a apenas 4,2 anos-luz de distância. Em escala astronômica é "logo ali". Isso chamou a atenção da comunidade científica por muitos motivos. Por estar tão perto, aumentam as possibilidades de se estudar esse sistema com grande grau de detalhe. A descoberta foi tão importante que um projeto financiado pelo milionário físico russo Yuri Milner e apoiado por Stephen Hawking foi levemente alterado. Poucos meses antes os dois haviam lançado um projeto de lançamento de nanossatélites (o "starchip") impulsionados a laser em direção a Alfa Centauri, um sistema duplo de estrelas que marcaria a primeira viagem interestelar de sondas. A viagem levaria 20 anos, o que é plausível para toda uma geração de astrônomos. Acontece que a estrela Proxima Centauri parece fazer parte do sistema Alfa Centauri, ou seja, eles são vizinhos entre si. O projeto então ganhou um fôlego extra, pois sabemos agora que há um exoplaneta na região, e ele é potencialmente habitável! Água detectada! Pesquisadores usaram dados de arquivo de 2016 e 2017 capturados pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA / ESA e desenvolveram algoritmos de código aberto para analisar a luz das estrelas filtrada na atmosfera de K2-18b, um exoplaneta rochoso que orbita a zona habitável de sua estrela. Os resultados revelaram a assinatura molecular do vapor de água, indicando também a presença de hidrogênio e hélio na atmosfera do planeta. Os autores do artigo, publicado na Nature Astronomy, acreditam que outras moléculas, incluindo nitrogênio e metano, podem
Página 39
www.tikinet.com.br/iag/default.asp www.nasa.gov/kepler Astrobiologia: ciência emergente www.eso.org www.exoplanets.eu www.planethunters.org estar presentes, mas permanecem indetectáveis com as observações atuais. Mais estudos são necessários para estimar a cobertura de nuvens e a porcentagem de água atmosférica presente. A existência de exoplanetas em zona habitável não é novidade, mas é primeira vez que água é detectada em planetas nestas condições. O sistema de K2-18b está a 110 anos-luz de distância. Marte: vida fora da Terra em nosso quintal? Marte não é um exoplaneta. Ele está aqui no nosso Sistema Solar. Mas seu interesse astrobiológico é de longe o que mais chama a atenção. Sabe-se que Marte teve muita água no passado, como atesta por exemplo os inúmeros leitos secos de rios em sua superfície. Recentemente, a sonda europeia Mars Express detectou água líquida no planeta, mas não na superfície e sim no subsolo. Provavelmente já teve também mais atmosfera. Nestas condições, sua posição no Sistema Solar o deixaria na margem externa da Zona Habitável, mas ainda assim dentro dela. Teria a Vida surgido em Marte? Se sim, ainda existe? Se existe, onde está? Se foi extinta, deixou vestígios? Uma verdadeira força tarefa de agências espaciais de vários países tem trabalhado para responder estas e outras questões, incluindo o envio de orbitadores e sondas de solo. O que for (se for) encontrado em Marte pode ajudar muito na busca de Vida pelo Universo, orientando as pesquisas. Possibilidades Há trilhões de galáxias, cada uma com centenas de bilhões de estrelas. Muitas destas estrelas, estamos notando, parecem ter vários planetas em seu entorno. Alguns destes planetas ocupam a zona habitável estelar. É matematicamente improvável estarmos sozinhos. Caso contrário o universo será, como dizia o astrobiólogo Carl Sagan, um enorme desperdício de espaço! Wilson Guerra é astrônomo amador e professor. Graduou-se em Física, tem especialização em Astrobiologia e é mestre em Educação Científica. Referências: 1339 Leitos secos de rios antigos em Marte. AstroNova . N.23 . 2019 Ilustração mostra o exoplaneta K2-18b, sua estrela hospedeira e um planeta que acompanha este sistema. Dados do telescópio Hubble detectaram água em sua atmosfera.
Página 40
AstroNova é uma colaboração de estudantes, professores, astrônomos amadores e profissionais para a divulgação de Astronomia e Ciências da Natureza. É trimestral, com divulgação pública e gratuita. Disponível em: www.caeh.com.br Nos acompanhe no Fabebook e no Instagran REVISTA DE DIVULGAÇÃO DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS DA NATUREZA www.facebook.com/AstroNovaBrasil www.instagran.com/revistaastronova
