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17 de Abril, 2022

Americanos e russos devem retomar seus programas lunares este ano

Por Wilson Guerra

O ano de 2022 deve marcar o reinício dos vôos espaciais destinados ao nosso satélite natural, a Lua. Apesar da rivalidade originada no século XX entre Estados Unidos e a ex-União Soviética (agora Rússia), o contexto atual é bastante diferente. O século XXI parece indicar que as próximas expedições à Lua tem de fato um caráter mais científico, em oposição ao período da Guerra Fria, marcado por competição geopolítica e demonstrações de poderio militar.

Do lado americano, a Nasa lidera o programa Artemis. A ideia de retornar à Lua foi iniciada a duas décadas mas contou com muitos problemas organizacionais. Uma competição partidária interna bastante contraproducente do ponto de vista técnico impediu que a Agência Espacial Americana pudesse se focar num projeto central. Cada novo presidente eleito do país definia uma prioridade que a Nasa era obrigada a seguir. Além da perda de tempo, cada mudança envolvia mais dinheiro para adaptar os projetos, o que foi encarecendo o programa junto às empresas privadas contratadas, principalmente a Boeing e a Lockheed Martin (hoje da Northrop Grumman).

Veículos lançadores do projeto Constellation, cancelado em 2011.

A administração George W. Bush criou nos anos 2000 o programa Constellation, que tinha como objetivo enviar astronautas dos EUA à Lua em 2020. O projeto foi cancelado em 2011 pelo então presidente Barak Obama, depois de bilhões de investimentos. A prioridade do programa espacial tripulado na Nasa seria a partir de então o projeto Asteroid Redirect Mission, que desenvolveria capacidades de desviar e até trazer asteroides à órbita terrestre para fins científicos e comerciais (mineração). O novo projeto usaria algumas das estruturas propostas no Constellation, como a cápsula tripulada Órion, e poderia preparar caminho para futuras viagens tripuladas para o planeta Marte. Com desafios enormes e orçamentos ainda maiores, a administração Trump definitivamente encerrou o programa Asteroid Redirect Mission 2017 (anos antes já haviam vários indícios de que o projeto não continuaria). A Nasa assim pôde focar definitivamente na Lua. Surgiu então o atual programa Artemis. Toda uma nova (e cara) adaptação dos projetos anteriores levaram a concepção e construção do super foguete SLS, cujo primeiro exemplar está pronto e passando por testes finais já na plataforma de lançamento. Se tudo correr bem, o SLS irá decolar em 29 de junho levando uma cápsula Órion ainda sem tripulação para circunavegar a Lua e retornar à Terra de modo inteiramente autônomo. Um conjunto de nanossatélites devem ir de carona. A maioria deles é destinada a realizar uma série de estudos preliminares da Lua, coletando informações para a Nasa continuar com o programa. O objetivo final do Artemis é manter, com ajuda internacional, uma estação orbital em torno da Lua chamada Gateway e estabelecer uma base de pesquisas em algum ponto próximo do pólo Sul lunar. Esta base e estação orbital, por enquanto, estão em fase de desenvolvimento e há poucos detalhes sobre ambas.

A nave Órion, projetada para a missão Constellation, seria usada para o programa Asteroid Redirect Mission (ARM). O ARM, por sua vez, foi cancelado em 2017.
O SLS (Space Launch System) a caminho da plataforma de lançamento para a missão Artemis-1, que deve partir de junho. É o principal lançador do programa Artemis, construído pela Boeing e Lockheed Martin a pedido da Nasa.

No lado russo, a Roscosmos (Agência Espacial da Rússia) tem em 23 de julho a data provável para lançar a sonda de pesquisas Luna-25. O projeto é a continuação do profícuo programa espacial soviético dos anos 70 que inaugurou a era de máquinas automáticas de pesquisa lunar, hoje relativamente comuns até em Marte. A Luna-25 também quebra um jejum mais de vinte anos da pesquisa espacial russa na Lua, consequência do fim da URSS em 1991, levando a uma profunda crise econômica que assolou a Rússia por duas décadas.

A sonda automática Luna-25, em inspeção no cosmódromo de Vostochny (Rússia).

A ideia da construção da sonda Luna-25 e duas sucessoras (26 e 27) surgiu com o projeto Luna-Glob (Esfera Lunar) na década passada. Veio do esforço da Roscosmos de voltar a ter um programa espacial científico mais completo, como era o da ex-União Soviética, não reduzido a viagens espaciais tripuladas em órbita baixa que a Rússia foi obrigada a se limitar com a crise econômica dos anos 1990 e 2000. Em 2021, porém, o anúncio do programa da Base Lunar Científica Internacional (ILRS) revelou um detalhado e bem estruturado cronograma da parceria da Roscosmos com a Agência Espacial da China (CNSA) e colocou a Luna-25 como a missão inaugural deste grande projeto. O objetivo de russos e chineses é que nos primeiros anos da década de 2030 uma estação de pesquisas científicas esteja instalada e operacional na superfície da Lua. A sonda Luna-25 entra, desta forma, como a primeira missão para prospecção e análise de um local para a futura construção das instalações da ILRS. A sonda é basicamente um “lander” (pousador), que carrega diversos instrumentos científicos cujo objetivo é analisar as condições do local de pouso nos arredores do pólo Sul da Lua. O pólo Sul lunar é estratégico porque as pesquisas atuais indicam presença de água congelada. Além disso, oferece visão permanente para a Terra e é iluminada constantemente por luz solar, garantindo menores gradientes de temperatura e assim facilitando construção de instalações habitáveis. São os mesmos motivos que fizeram o programa Artemis dos Estados Unidos a elegerem a região para suas futuras estações de pesquisas.

A missão da Luna-25 será a primeira do projeto da ILRS (Base Lunar Científica Internacional) a estudar um local para a construção da estrutura de pesquisa lunar tripulada conjunta da Roscosmos com a CNSA.

Apesar da declarada guerra econômica entre Estados Unidos e Rússia, cujo conflito na Ucrânia é apenas sua expressão mais visível no momento, é pouco provável que as sanções ocidentais contra os russos interferiram na missão Luna-25. O dispositivo está praticamente pronto e já se encontra no cosmódromo de Vostochny, no leste da Rússia. Se tudo correr bem, seu lançamento deve acontecer a partir do clássico foguete Soyuz. O vôo até entrar na órbita da Lua vai durar de 4 dias e meio a 5 dias. O mesmo tempo será necessário para as manobras orbitais seguintes até a chegada ao solo lunar. O processo de descida e pouso será filmado e as primeiras imagens chegarão ao controle da missão em meia hora.

Ambas as missões podem abrir uma nova era na pesquisa espacial. Não há espaço para o irracional “requentamento” de uma Guerra Fria extinta no século passado. Estes são projetos que atestam a enorme capacidade científica da humanidade, evidência de um grande potencial que ajuda a termos esperança em nossa própria espécie.

Fontes:

https://www.nasa.gov/pdf/185978main_Cx_PEIS_draft.pdf

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2010/02/687701-obama-inicia-reducao-do-deficit-e-sepulta-ida-a-lua-em-2020.shtml

http://www.nasa.gov/artemis

https://ok.ru/roscosmos/topic/154370575861895

https://tass.com/science/1393447

http://www.cnsa.gov.cn/english/n6465652/n6465653/c6812150/content.html

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