Hoje em dia são comuns as notícias sobre a Estação Espacial Internacional, seja em relação a experimentos ou à troca de tripulação. O que pouco se sabe é que os EUA tentaram ter sua estação própria na década de 1970. Mas o programa apresentou tantos problemas que a Nasa optou por mudar totalmente seus projetos.

A ORIGEM
Com os avanços do Programa Apollo e as falhas do foguete N1, a URSS mudou totalmente seus planos. Assim a meta mudou para a construção de estações espaciais, nas quais cosmonautas pudessem realizar experimentos e manobras. Em 1971 foi lançado o Programa Salyut e com ele uma parte desenvolvida pelos militares, as estações espaciais Almaz.
Com a perspectiva do fim do programa Apollo, os EUA definem como meta a construção de estações espaciais para rivalizar o Programa Salyut. Surge então o Projeto Skylab, ou seja, Laboratório Celeste; que se iniciaria como pesquisa científica para posterior criação de estações espaciais militares. Mas as versões militares acabaram não acontecendo.

O LANÇAMENTO E O INÍCIO DOS PROBLEMAS
O lançamento ocorreu em 14 de maio de 1973 usando um foguete Saturn V modificado. A estação continha 5 partes: Telescópio solar multi-espectral (para observar em vários comprimentos de onda, do infravermelho ao ultravioleta extremo), Sistema de acoplagem múltipla (que permitia até duas cápsulas acopladas), Módulo selado (para possibilitar caminhadas no espaço), Unidade de instrumentação e a Unidade de trabalho orbital, também denominada oficina.
Já no lançamento danos severos aconteceram. Vibrações não previstas causaram a perda do escudo de proteção de micrometeoritos e de um dos painéis solares. Os destroços desse escudo acabaram causando danos a outro painel solar que não conseguiu se abrir completamente. A solução foi realizar uma manobra orbital remota (a estação ainda não tinha tripulação) para que o painel que havia sobrado pudesse captar o máximo de energia possível.

Foguete Saturn V modificado lança estação Skylab


A estação permaneceu alguns dias vazia até a chegada da primeira tripulação. A tabela 1 apresenta as datas de lançamento, pouso e também os astronautas da missão.
Todas as missões tripuladas usaram o foguete Saturn 1B, menos potente e de lançamento mais barato que o Saturn V.


A classificação das missões foi muito confusa. As numerações Skylab I, II II e IV foram dadas posteriormente. Na época as missões II, III e IV tiveram em suas insígnias os números I, II e 3 (assim mesmo!). A Figura 1 mostra as insígnias (patches) de cada missão.

Figura 1. Insígnias do Programa Skylab e das missões na época denominadas como SLM (SkyLab Mission) I, SLM II e SLM 3.


Houve muita controvérsia na Nasa até que posteriormente consideraram que, como no vôo de lançamento houve manobra orbital remota, deveria ser considerada a missão I e toda a classificação foi alterada. É esta classificação que será utilizada daqui para frente neste artigo.
Skylab II
A principal tarefa desta missão foi tentar consertar a estação. Os danos causados na decolagem e o uso do painel solar restante para a máxima captação causou superaquecimento no interior da estação, na qual a temperatura ambiente chegava a absurdos 52°C, causando liberação de gases tóxicos, degradação de filmes plásticos e estragando toda a comida que foi levada a bordo. Assim a tripulação teve que trabalhar rápido para poder sobreviver.

A Skylab em suas primeiras órbitas. Problemas no lançamento a deixaram com sérias limitações


Com as falhas no acionamento do painel solar avariado, improvisou-se uma espécie de ‘guarda-sol espacial’ para substituir o revestimento que foi avariado. Isto foi suficiente para diminuir a temperatura interna à faixa de 22 a 25°C. Entretanto, o ar da estação teve que ser trocado pois continha gases tóxicos resultantes de degradação térmica. Assim, todo o ar foi trocado por nitrogênio e posteriormente e estação foi preenchida com ar atmosférico.
No período de 28 dias da missão foram realizados reparos na estrutura, experimentos médicos e filmagens do Sol e da Terra, totalizando 392 horas de experimentos. Na época a missão bateu o recorde de permanência no espaço, sendo que o astronauta Peter Conrad bateu o recorde de maior tempo em órbita.
Skylab III
O primeiro problema foi um vazamento de propelente no propulsor do módulo de serviço, porém a tripulação conseguiu acoplar com segurança. Seis dias depois outro propulsor apresentou vazamento. Pela primeira vez foi posta de prontidão uma espaçonave do Programa Apollo para ser utilizada como missão de resgate. Mas o problema foi resolvido pela tripulação.

O astronauta Edward Gibson no interior da estação Skylab.


Esta missão continuou com os estudos médicos de adaptação fisiológica e psicológica ao ambiente espacial. Um dos exames realizados foi a fotografia das faces dos astronautas para avaliar o inchaço causado pela redistribuição de fluido dentro do organismo. Foram também realizadas medidas de pressão sanguínea, volume das pernas, medidas do abdômen, avaliações de massa e densidade de urina e coleta de dados sobre a saúde dental.
Foram realizados ainda experimentos biológicos envolvendo cultura de células pulmonares. Dois experimentos envolvendo animais foram levados: Cronobiologia de cobaias (Perognathus longimembris) e Ritmo circadiano de mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster). Ambos experimentos foram malsucedidos devido a falhas na energia 30 horas após o lançamento, causando a morte de todos estes animais.
Esta missão teve a participação de estudantes de várias escolas dos EUA (high school) que sugeriram experimentos de medidas de nêutrons, medição de raios-x de Júpiter, imunologia in-vitro e formação de teias de aranha em microgravidade.
Skylab IV
Esta missão iniciou-se com uma ‘pegadinha’. A tripulação da missão anterior vestiu bonecos de teste com roupas da missão. Assim ao se aproximar da nave e ver as formas humanas na escotilha na estação, a tripulação da Skylab IV tomou um enorme susto e chegaram a pensar que a nave foi tomada pelos soviéticos.
Logo depois, a tripulação escondeu do controle em Houston que o astronauta William Pogue estava muito mal, com uma intensa síndrome de adaptação do espaço. Este fato só foi descoberto pelo controle da missão ao ouvir as gravações das conversas a bordo.
Outro problema foi o conflito entre o controle da missão e a tripulação por esta não conseguir cumprir o cronograma de tarefas. Houve até uma paralização de atividades, e a tripulação chegou a desligar o sistema de comunicação. Em posterior videoconferência foi exigida modificações no inviável cronograma de tarefas. Este fato fez com que a Nasa planejasse melhor as agendas de experimentos e manutenções das missões futuras.
Foram feitas 75 mil imagens do Sol e da Terra e no dia 13 de dezembro foi registrada a passagem do cometa Kohoutek através do telescópio da estação.

Passagem do cometa Kohoutek em cores falsas, fotografado em ultravioleta. Registro feito na missão Skylab IV.


Os astronautas desta missão eram todos ‘calouros’ em missões espaciais, ou seja, era a primeira viagem espacial do grupo. Há relatos de que ficaram tão estressados e traumatizados com a rotina no espaço que ao retornar à Terra toda a tripulação deu baixa antes da conclusão dos ônibus espaciais.

FIM DO PROGRAMA
Após o retorno da missão Skylab IV foi anunciado que dentro de 4 meses haveria o voo da missão Skylab V. A Nasa chegou a anunciar o tempo de duração da missão, de 20 dias, e a tripulação: Vance Brand (comandante), Don Lind (piloto) e William B. Lenoir (piloto cientista). Brand e Lind foram escalados anteriormente para a missão de resgate da Skylab III. Entretanto, mesmo após os anúncios, a missão foi cancelada.
Também foi pensado o lançamento de uma nova estação, denominada Skylab B, que seria como um recomeço das estações espaciais dos EUA. Entretanto, em 1974, foi decidido que esta nova estação não seria construída devido ao seu alto custo e assim optou-se pelo desenvolvimento dos ônibus espaciais.

Hora da refeição para astronautas da SkyLab II.


A última tripulação saiu do Skylab em fevereiro de 1974 e a estação ficou desabitada por 5 anos, 5 meses e 3 dias. Era esperado que a estação ficasse 10 anos em órbita, mas uma máxima de tempestades solares diminuiu este tempo consideravelmente. Foi pensado em acelerar o programa dos ônibus espaciais para que se pudesse colocar o Skylab em órbita mais alta. Porém devido aos custos, o projeto foi abandonado.

Atividade extra-veicular: SkyLab III

Finalmente, em 11 de julho de 1979, a Skylab reentra na atmosfera e alguns detritos caem no território australiano e no Oceano Índico (Figura 3). Era o fim da tentativa de se ter uma estação espacial totalmente construída e operada pelos EUA.

CONSEQUÊNCIAS
Com o fim do Skylab, a maior parte da verba da Nasa foi aplicada ao desenvolvimento dos ônibus espaciais. Foi construída uma versão um pouco menor da oficina dentro de cada uma das naves.

Retorno dos astronautas da SkyLab II na cápsula Apollo.


De todos os experimentos programados, apenas 40% foram realizados. Apesar de ter fornecido muitos dados importantes e ótimas observações, o Programa Skylab foi muito caro e mal planejado. Em valores de 2010, todo o projeto, desde a concepção até a realização custou US$ 10 bilhões. A manutenção das tripulações no total de 510 dias custou US$ 19,6 milhões por astronauta, valor muito alto quando comparado ao da Estação Espacial Internacional: US$ 7,5 milhões por astronauta. Houve uma tentativa de retomada de construção de uma estação espacial com os projetos da Freedom em 1988. Mas com os cortes de gastos feitos por governos republicanos (Reagan e Bush), houve um projeto de uma estação menor denominada Alpha. Baseando-se nos projetos da Alpha que o governo Clinton propôs em 1993 o Programa de uma Estação Espacial Internacional aproveitando a experiência de sucesso dos russos, que hoje opera com a cooperação de 16 nações.

Por Rafael Cândido Jr.
Bibliografia:
Living and working in space: A history of Skylab – W. David Compton and Charles D. Benson
NASA History Series – 1983.
SpaceFacts: www.spacefacts.de

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