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3 de Maio, 2021

Teria a SpaceX buscado “inspiração” na engenharia soviética?

Com uma legião de fãs pelo mundo e muito marketing para incitá-los, o bilionário Elon Musk apareceu nas telas de todas as mídias com mais força depois que os foguetes de sua empresa aeroespacial SpaceX decolaram, nos dois sentidos.

Quando o jovem (ainda não tão) ricaço teve a idéia de fundar uma empresa para alugar naves espaciais, no começo do novo milênio, ficou interessado no trabalho dos pioneiros: a engenharia soviética. Fez então algumas viagens à Rússia. Oficialmente, sua intenção era comprar alguns motores foguete ou o que mais pudesse da engenharia que inaugurou a Era Espacial. Não foi o que aconteceu. É provável que os valores envolvidos ainda eram salgados para o jovem Musk, até então mais conhecido por ser o filho de donos de jazidas de pedras preciosas na África do Sul que fundou o Paypal. Mas talvez as viagens tinham outro objetivo, ou pelo menos mais um: conhecer o “método russo” de foguetes.

A “filosofia” espacial russa

O sistema russo é barato e um dos mais confiáveis do mundo. Sua estrela é o foguete Soyuz, um veículo lançador de médio porte movido a oxigênio líquido e querosene (RP-1), com geração de gás operando naquilo que o engenheiros denominam de ciclo fechado. A origem disso remonta ao Sputnik. E, talvez por isso, é absurdamente otimizado, o que lhe garante a robustez e a confiabilidade atuais. Informativos de negócios aeroespaciais dizem que o seguro para se lançar satélites com o Soyuz é o mais barato do mundo para foguetes daquele porte. Um reconhecimento do “deus mercado” à qualidade do produto.

Hoje a Rússia trabalha efetivamente com o Soyuz 2.1, cuja eletrônica foi totalmente atualizada. O Soyuz é também o foguete mais presente no mundo, algo que não ocorre com nenhum outro lançador. Ele pode decolar de mais de uma base no país, de mais de um país, e de mais de um continente. De fato, dentro da Rússia o Soyuz parte tanto do cosmódromo de Plesetsky como do novíssimo cosmódromo de Vostochny, no leste do país. Também parte de fora do território russo, do óbvio cosmódromo de Baikonur no Cazaquistão, de onde partiu Yuri Gagarin quando esses países eram membros da extensa União Soviética. E uma “versão tropical” do Soyuz também parte do continente da América, no espaçoporto europeu de Kourou, na Guiana Francesa.

Quando não lançam satélites seus ou para clientes, as naves que o foguete Soyuz carrega são um exemplo de economia e versatilidade da engenharia russa. A Progress, uma nave cargueira, e a Soyuz, uma nave tripulada, são praticamente idênticas na sua aparência. Internamente também compartilham do mesmo sistema mecânico de acoplamento em estações espaciais (outra especialidade russa) e do sistema de atracamento autônomo controlado pelo algoritmo Kurs. Sim, estas naves russas acoplam automaticamente, desde os anos 1970. Muito excepcionalmente alguma intervenção humana foi necessária. As semelhanças não são coincidência: é uma forma de se aproveitar a planta industrial já existente, otimizando sistemas e reduzindo custos. Sem dúvida uma das receitas de sucesso para um sistema tão antigo continuar operante, funcional e confiável.

Resumidamente, os russos conseguiram, com um único foguete, lançar tanto naves cargueiras quanto naves tripuladas. Essas naves, por sua vez, têm um único design geral e um mesmo sistema de hardware e software para acoplamento. Um primor de otimização que encanta qualquer engenheiro “raiz”.

SpaceX: em time que se ganha, não se mexe.

Quatorze anos após a fundação da SpaceX, em 2016, e depois de estimados U$ 4 bilhões de dólares de subsídio do governo dos EUA via Nasa, a empresa começa a operar seu foguete Falcon9. Com a inovação de estágio retornável, de deixar caído o queixo de qualquer um. A tecnologia, também dominada pela concorrente Blue Origin com o foguete turístico New Shepard, foi originalmente desenvolvida nos anos 1990 pela empresa já inexistente McDonnell Douglas. Se a inovação é viável realmente, o tempo dirá em breve.

A SpaceX começou a usar seu Falcon9 transportando cargas comercialmente para a Estação Espacial Internacional (ISS) como contratada pela Nasa. Para isto, usa a nave cargueira Dragon. Em 2020 passou a operar sua nave tripulada Crew Dragon, que até o momento já levou três “remessas” de astronautas para a ISS.

E é aí que as coincidências começam a saltar na nossa frente. A SpaceX construiu seu foguete Falcon9 que, quando não lança satélites seus ou para clientes, leva naves cargueiras (a Dragon), ou naves tripuladas (a Crew Dragon), exatamente como um foguete Soyuz. Essas naves têm uma aparência geral semelhante.

Assim como ocorre com as naves Progress e Soyuz russas, internamente Dragon e Crew Dragon compartilham o mesmo sistema mecânico de acoplamento. Pela primeira vez em um programa espacial dos EUA, em 2020, o atracamento da Crew Dragon é feito autonomamente, um método que as naves russas usam há quatro décadas. E neste ano de 2021 as versão cargueira também adotou o método autônomo de docagem na Estação Espacial.

Em tempo, o foguete Falcon9 usa como propelentes os clássicos oxigênio líquido e querosene operando em ciclo fechado, “like a Soyuz”.

A receita de otimização de custos no projeto e logística escolhidos pelos engenheiros da SpaceX seguiu os passos dos russos? O leitor decide. Quaisquer que sejam as conclusões individuais, esta breve história mostra que, por trás de decisões de gestão e inovação empresarial, se inspirar naquilo que funciona não faz nenhum mal, seja de onde for. Afinal, se há uma coisa que Elon Musk sabe é que na busca pelo lucro o que importa é o lucro.

Fontes:
Glavkosmos: https://www.glavkosmos.com/en/launch-services
Itar Tass: https://spec.tass.ru/polet-k-mks/odnovitkovaya-skhema-poleta
SpaceX: https://www.spacex.com/vehicles/dragon/
USA Today: https://www.usatoday.com/story/news/nation/2020/05/26/spacex-how-elon-musk-took-idea-cusp-history/5257977002/

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