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Acervo textual da Revista AstroNova

Edição 40 (Chegamos!) — páginas 1 a 20

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Assuntos identificados: eclipse, estrelas, norte, campo, solar, observação, magnético, terra, fonte, astronomia.

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A DESCOBERTA DO INFRAVERMELHO REVISTA DE DIVULGAÇÃO DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS DA NATUREZA ATIVIDADES NA ESTAÇÃO ESPACIAL TIANGONG AGENDA DOS LANÇAMENTOS ESPACIAIS ATIVIDADES NA ESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONAL Ano 10 - Nº 39 - Setembro/2023 MAGNETOSFERA DA TERRA SOFTWARES NO ENSINO DE ASTRONOMIA ECLIPSE ANELAR DE 14/10/2023 Ano 10 - Nº 40 - Dezembro/2023 REVISTA DE DIVULGAÇÃO DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS DA NATUREZA ATIVIDADES NA ESTAÇÃO ESPACIAL TIANGONG AGENDA DOS LANÇAMENTOS ESPACIAIS ATIVIDADES NA ESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONAL

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Conselho editorial: Adriane Casteleira a Maico A. Zorzan [email protected] Rafael Cândido Jr. [email protected] Wilson Guerra [email protected] Redatores desta edição: Jenivaldo Lisboa de Araújo Micheli Trindade Moura Rafael Cândido Jr. Ricardo Francisco Pereira Arte e Diagramação: Wilson Guerra Astrofotos: Beatriz Yordaky Bruno Bonicontro Carlos Aparecido Domingues [email protected] Mais um ano, mais um verão bem quente aqui pelo grande Brasil, desde as regiões tropicais até as subtropicais. E é forjado nesse calor que a equipe da AstroNova vem com a 40ª edição de nossa revista. Falando de calor, começamos com o artigo do prof. Ricardo Francisco Pereira que trata da descoberta e algumas aplicações das radiações infravermelho, esta faixa do espectro que é a principal responsável eletromagnética da transmissão de calor via irradiação. Em seguida, relembramos o tão esperado Eclipse Solar Anelar que foi visto de várias partes do Brasil em 2023. Para isso contamos nessa edição com um relato muito completo de Micheli Trindade Moura. Ela, que é doutoranda em Astronomia, se aventurou em viajar do Sul do país para o estado do Ceará, onde tentou acompanhar o eclipse. Rafael Cândido Jr. traz um artigo muito rico e completo sobre o campo magnética da Terra, com muitas e interessante informações detalhas sobre o tema do Geomagnetismo. Finalizamos essa edição com um grande artigo sobre softwares e simulares com potencial no Ensino de Astronomia, contribuição mais uma vez da Micheli em trabalho conjunto com o prof. Jenivaldo Lisboa de Araújo. Mas como sempre, iniciamos com a agenda de lançamentos espaciais e um resumo das atividades nas estações espaciais Internacional e Tiangong. Uma boa leitura! Wilson Guerra AstroNova . N.40 . 2023 EXPEDIENTE EDITORIAL Capa: Meteoro (geminídeas) Gaurav Singh Wilson Guerra GCAA Wilson Guerra GCAA

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SUMÁRIO 09 19 Ano 10 | Edição nº 40 | 2023 11 29 A DESCOBERTA DO INFRAVERMELHO MAGNETOSFERA DA TERRA SOFTWARES PARA O ENSINO DE ASTRONOMIA ECLIPSES E PERRENGUES

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PRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTREPRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTRE Foguete: Soyuz 2 (POCKOCMOC) Carga: cargueiro Progress, com equipamentos para ISS. Local: Cosmódromo de Baikonur Data: 15/02/2024 Foguete: Angara A5 (POCKOCMOC) Local: Cosmódromo de Vostochny Data: 21/02/2024 Carga experimental Foguete: Soyuz 2 Satélite meteorológico Meteor-2 (POCKOCMOC) Local: Cosmódromo de Vostochny Data: 29/02/2024 Foguete: Soyuz-2 (POCKOCMOC) Nave MS-25 com tripulação para ISS Local: Cosmódromo de Baikonur Data: 21/03/2024 RÚSSIARÚSSIA Foguete: Falcon 9 (SpaceX) Carga: pousador lunar Nova-C Local: centro espacial Kennedy Data: 02/2024 Foguete: Falcon 9 (SpaceX) Axiom Mission 3, vôo tripulado comercial Local: centro espacial Kennedy Data: 17/01/2024 Foguete: Atlas V (ULA) Carga: satélite USSF 51 (USA Air Force) Local: Cabo Canaveral Data: 02/2024 Foguete: Falcon 9 (SpaceX) Carga: nave cargueira Cynus com equipamentos e mantimento para ISS Local: Cabo Canaveral Data: 29/01/2024 EUAEUA

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PRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTREPRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTRE Foguete: GSLV-II (ISRO) Satélite INSAT-3DS Local: Satish Dhawan Space Centre Data: 28/01/2024 ÍNDIAÍNDIA Foguete: PSLV-XL (ISRO) Satélite Cartosat-3A Local: Satish Dhawan Space Centre Data: 02/2024 Foguete: Carga: satélites CE-SAT-1E e TIRSAT Local: centro espacial de Tanegashima Data: 14/02/2024 H-3 JAPÃOJAPÃO Foguete: Carga: satélite IGS-Optical 8 Local: centro espacial de Tanegashima Data: 12/01/2024 H-2A Foguete: Longa Marcha 7 (CNSA) Carga: nave cargueira Tianzhou 7 com mantimentos para Tiangong (CSS) Local: base de Wenchang Data: 15/01/2024 CHINACHINA Foguete: Kinetica-1 (CAS) Vôo experimental 3 Local: base de Jiuquan Data: 01/2024 Foguete: Longa Marcha 2 (CNSA) Nave Shenzhou-18 com tripulação para estação Tiangong (CSS) Local: base de Jiuquan Data: 23/03/2024

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Principais atividades: outubro a dezembro/2023 Principais atividades: outubro a dezembro/2023 Tripulação atualTripulação atual ESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONALESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONAL Soyuz MS-25: Roscosmos (03/2024)Soyuz MS-25: Roscosmos (03/2024) Próximas ExpediçõesPróximas Expedições Crew-8: SpaceX (02/2024)Crew-8: SpaceX (02/2024) Astronauta Satoshi Furukawa trabalho com equipamento que trata dióxido de carbono. Astronauta Satoshi Furukawa trabalho com equipamento que trata dióxido de carbono. Astronautas Jasmin Moghbeli e Loral O'Hara com bandanas repletas de sensores para monitoramento da saúde. Astronautas Jasmin Moghbeli e Loral O'Hara com bandanas repletas de sensores para monitoramento da saúde.

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Estação Espacial TiangongEstação Espacial Tiangong Principais atividades: julho a setembro/2023Principais atividades: julho a setembro/2023 Tripulação atual (Shenzhou-17)Tripulação atual (Shenzhou-17) Cultivo de plantas comestíveis na estufa de experimentos com vegetais. Cultivo de plantas comestíveis na estufa de experimentos com vegetais. Taikonautas Tang Hongbo e Tang Shengjie realizam caminhada espacial instalando equipamentos na parte externa da Tiangong. Taikonautas Tang Hongbo e Tang Shengjie realizam caminhada espacial instalando equipamentos na parte externa da Tiangong. Taikonauta Tang Hongbo se alimenta de folhas cultivadas na estação. Taikonauta Tang Hongbo se alimenta de folhas cultivadas na estação.

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09 Ricardo Francisco Pereira [email protected] Em 1800, Wilhelm Friedrich Herschel, mais conhecido como William Herschel (1738-1822) fez várias experiências para estudar a relação entre luz e calor. Numa delas, formou um espectro da luz solar com um prisma e foi posicionando um termômetro na cor que ele queria estudar, com outros dois termômetros ele marcava a temperatura ambiente para referência. Herschel descobriu que a luz violeta era a que propiciava uma temperatura mais baixa no termômetro e a luz vermelha provocava a temperatura mais elevada, então, por curiosidade, ele posicionou um termômetro além da cor vermelha, onde a princípio, não havia luz e registrou que a temperatura medida pelo termômetro era ainda mais alta que no vermelho. Concluiu então que deveria haver “outro tipo de luz” o qual não podia ser visto nesta região. A princípio, ele chamou de “raios caloríficos”, mas posteriormente deu o nome de INFRAVERMELHO. WILLIAM HERSCHEL E A REVOLUÇÃO INVISÍVELWILLIAM HERSCHEL E A REVOLUÇÃO INVISÍVEL ELETROMAGNETISMO A DESCOBERTA DO INFRAVERMELHO A DESCOBERTA DO INFRAVERMELHO Imagem 1 (esquerda): William Herschel. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/William_Herschel. Imagem 2 (direita):Experimento de Herschel medindo a temperatura das cores. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=-JdhySH2PMc

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atravessar coisas que a luz visível não consegue, como nuvens, poeira e até mesmo algumas paredes. Isso faz com que seja útil em muitas situações. As câmeras de visão noturna usam essa radiação para capturar imagens no escuro, permitindo que pessoas e animais sejam vistos mesmo quando está completamente escuro. Na indústria, é usada para secar tintas e revestimentos, pois consegue aquecer as coisas sem entrar em contato direto e até mesmo os controles remotos usam essa tecnologia para enviar sinais para a TV, ar condicionado ou outros dispositivos. Já os cientistas usam a radiação infravermelha para estudar estrelas e planetas, já que ela consegue "enxergar" 10 AstroNova . N.40 . 2023 O experimento de Herschel foi importante porque levou a descoberta da radiação infravermelha e porque pela primeira vez alguém mostrou que existiam formas de “luz” que não podiam ser observadas com nossos olhos. Uma das coisas mais legais sobre a Radiação Infravermelha é que pode através das nuvens de poeira que podem atrapalhar nossos telescópios normais. Resumindo, mesmo que não possamos ver a radiação infravermelha, ela está ao nosso redor e desempenha um papel muito importante em várias coisas que facilitam nossas vidas, desde a área médica até a tecnologia que usamos todos os dias. Ricardo Francisco Pereira é professor do Departamento de Física da UEM. Graduado em Física, é mestre e doutor em Educação para a Ciência e Matemática. Mantém a página Recursos de Física. Imagem 3: Termômetros indicando temperaturas diferentes para cores diferentes. www.coolcosmos.ipac.caltech.edu. Imagem 4: Comparação entre fotografias normais (luz visível) e fotografias feitas no infravermelho. http://astrobob.areavoices.com/astrobob/images/IR_image_examples_NASA_2.jpg. Para saber mais: https://brasilescola.uol.com.br

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RELATO DE UMA OBSERVAÇÃO DO ECLIPSE SOLAR ANELAR DE 14 DE OUTUBRO DE 2023 ECLIPSES E PERRENGUES! ECLIPSES E PERRENGUES! Micheli Trindade Moura [email protected] Os eclipses solares são eventos imponentes que despertam admiração em todos os públicos, e especialmente entre os entusiastas da astronomia. Estes eventos caracterizados pelo bloqueio momentâneo parcial ou total da luz do Sol causa grande impacto, afinal de contas, o dia virar noite foge do que é ‘natural’ em uma primeira impressão. Não apenas eclipses totais causam esse efeito, os chamados eclipses anelares (ou anulares) também propiciam um certo assombro, considerando o apelo visual de ver um ‘anel de fogo’ no céu em ocasiões propícias. A impressão causada por eclipses solares é tal que ao longo da história, desde tempos ancestrais, esses eventos foram meticulosamente registrados. Eclipses de forma geral emergem como protagonistas em narrativas que abrangem desde contextos de guerras até manifestações de superstições e práticas religiosas em diferentes culturas. Além de convenientes marcadores de tempo, os eclipses solares se destacam como fontes para investigações de teorias, estudo das propriedades do Sol e relações de distância e tamanhos entre o sistema Sol-Terra-Lua. Observar esse fenômeno quando as condições de local e horário se tornam adequadas representam um desafio ancestral para os observadores. Ainda que sejam eventos previsíveis, devido à relação entre tamanhos e distâncias dos astros vistos da Terra, os eclipses solares são visíveis apenas para uma estreita região onde a sombra da Lua toca a superfície do nosso planeta. Dessa forma, apesar de haver certa frequência de eclipses solares, eles não são frequentemente observados. Além do desafio inerente de 11 ASTRONOMIA OBSERVACIONAL

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12 Figura 9 estar dentro da faixa de observabilidade do eclipse solar, é necessário ainda contornar as vicissitudes da atmosfera terrestre que, frequentemente, fazem o papel de obscurecer a observação, eclipsando o fenômeno. Em solo brasileiro, um episódio que merece destaque foi o eclipse solar ocorrido em Sobral, Ceará, em 1919. Esse eclipse se consolidou como um marco importante para a confirmação da teoria da relatividade geral. Entretanto, esse não foi o único episódio desta saga da observação do ‘eclipse solar de Einstein’. Em 1912, uma comissão internacional de cientistas desembarcou em Passa Quatro, Minas Gerais, visando registrar e calcular desvios previstos por Einstein durante um eclipse solar total. A comissão inglesa era liderada por Arthur Stanley Eddington. Em uma época onde tudo podia dar errado, dado à comunicação, transporte, (o idioma), e equipamentos astronômicos serem mais precários e rudimentares, o grupo enfrentou outro problema mais elementar: a chuva. Choveu o dia todo na data do eclipse, e somente sete anos depois foi possível reunir uma nova comissão com o objetivo de testar as previsões feitas para o desvio da luz das estrelas de fundo durante um eclipse solar total. Este relato pouco feliz para a comissão de Passa Quatro não apenas evidencia a importância desses eventos para a ciência, mas também destaca a resiliência dos observadores frente às adversidades naturais, moldando assim a história da exploração astronômica, de entusiastas amadores à cientistas. Eddington já ciente dos fatores adversos, recomendou à Royal Astronomical Society de Londres ao menos dois postos de observação para o eclipse de 1919. Assim, uma comissão iria para Sobral no Brasil e outra iria para a Ilha do Príncipe, no Golfo da Guiné. Não há relatos sobre o motivo que levou Eddington optar pela Ilha do Príncipe para a observação, e nem que isso estaria associado ao episódio infeliz no Brasil anos anteriores, porém, é digno de nota a pouca sorte de Eddington na escolha: também choveu e nublou em seu posto de observação na data do eclipse em 1919 na Ilha do Princípe. Uma história diferente foi contada a partir de Sobral, onde quase que Sir Arthur Stanley Eddington Registro do eclipse de 29 de maio de 1919, feito em Sobral (CE). 12 AstroNova . N.40 . 2023

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13 miraculosamente, após momentos de muitas nuvens próximo do máximo do eclipse, o céu abriu e foi possível fotografar o eclipse pela comissão situada no Ceará. A experiência de Eddington, embora pouco afortunada, não é singular, dadas as múltiplas condições que devem convergir para a observação desse evento, indo além das limitações impostas pela atmosfera terrestre. Mais recentemente, no dia 14 de outubro, o Brasil foi privilegiado com a observação de eclipse solar anelar, frequentemente chamado de 'eclipse anular'. O nome do eclipse vem da palavra anel (em latim, annulus), fazendo referência a característica aparente de um 'anel de fogo' no céu. Esse anel é formado devido ao tamanho aparente da Lua, que se torna menor do que o tamanho aparente do Sol, devido à sua posição mais distante da Terra em sua órbita (apogeu). Não diferentemente das expedições do passado, quando se trata de fenômenos astronômicos, faz-se necessário uma certa organização e planejamento, considerando todos os fatores controláveis: transporte, hospedagem, equipamentos, tempo hábil para imprevistos, e outros. Entretanto, embarcar em uma jornada para observar um eclipse solar requer também minimizar fatores incontroláveis, como as condições do tempo. Se no passado os piores inimigos em tempos de eclipse eram dragões devoradores e fúria divina, hoje em dia as nuvens fazem esse papel na hora de assombrar os observadores. Na tentativa de evitar ao máximo o mau tempo, foi tomada uma série de decisões baseadas em estatística. A faixa de anelaridade do eclipse do dia 14 de outubro passaria pelas regiões norte/nordeste do Brasil pelos seguintes estados: Amazonas, Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará, Pernambuco, Paraíba, e Rio Grande do Norte. Quanto mais ao leste, melhor em termos de altura do horizonte. O que é um fator importante, e com base nisso, Amazonas e Pará seriam bons candidatos. Entretanto, o clima do Amazonas é muito úmido, e a cidade candidata para observação (Tefé) tinha um acesso muito complicado, além do que a cobertura média de nuvens (com dados desde 2000) girava em torno de 74%. Sendo assim, esse estado foi cortado da lista, assim como o Pará. Do lado oposto, no oeste da região de anelaridade, as cidades candidatas eram litorâneas como João Pessoa (PB) e Natal (RN). Por serem capitais, são favorecidas em termos de acessibilidade, porém, perdem no quesito horizonte. Equipe da expedição de Sobral. AstroNova . N.40 . 2023

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Quanto mais para oeste, mais próximo do pôr do Sol aconteceria o máximo do eclipse, e portanto, mais próximo horizonte. Em Natal, por exemplo, o máximo do eclipse ocorria às 16h e 45 minutos e o pôr do Sol seria por volta de 17h e 13 minutos. Além do desfavorecimento em termos de altura do horizonte, tem o fator agravante de que no litoral é mais provável que nuvens estacionem próximas ao horizonte nesse horário. Além disso, os dados mostravam que a probabilidade de cobertura de nuvens nessas cidades nessa época girava em torno de 65-65%, logo foram descartadas da lista de cidades candidatas à observação ‘segura’, livre de nuvens. Tendo excluído a instabilidade úmida e bonita que deve ser a região amazônica e a imprevisibilidade do clima primaveril do litoral, a opção restante era o ‘meio’ da anelaridade, composto pelas regiões do Maranhão, Piauí e Ceará. A capital desses estados não eram próximas da região de observação, e considerando a logística de transporte: aeroportos (e carros de aplicativo), Juazeiro do Norte (CE) tornou-se uma opção bastante promissora. Devido ao turismo religioso (cidade do Padre Cícero) havia hotéis, transporte fácil e um aeroporto na cidade. Em Juazeiro o máximo do eclipse ocorreria às 16 h e 45 min, e o pôr do Sol seria quase uma hora depois, às 17h e 30 minutos, isso implicava em um Sol alto durante o eclipse, eliminando preocupações de ter necessariamente um lugar alto para a observação, sem que montanhas, prédios ou outras estruturas pudessem interferir na observação do fenômeno. Por outro lado, Picos no Piauí também era um outro lugar promissor, ostentando menos de 50% de possibilidade de cobertura de nuvens nessa região nessa época do ano, estando apenas há 4 horas de distância de Juazeiro. Tanto Juazeiro como Picos fazem parte do sertão nordestino, caracterizado pelo clima tropical semiárido (quente e seco). Outra característica particular dessas regiões são 14 AstroNova . N.40 . 2023 Formação de um arco-irís antes da chuva no IFPI, na véspera do evento.

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15 as duas estações bem definidas: a época de chuva concentrada em dois ou três meses, e a época da seca em todo o período restante. O posto de observação decidido ficou em Picos, dado que a época de chuva se iniciava por volta de fevereiro/março e havia todo o suporte local do Instituto Federal de Picos (IFPI). Mesmo confiando que todas as decisões foram tomadas com bases sólidas, a incerteza ainda não poderia ser descartada. Nessas horas, mais do que a estatística, o parecer de quem nasceu e viveu lá a vida toda tem um peso ainda maior. Então ouvir – na véspera do eclipse - que não chovia há meses (desde a época de chuvas), seguido de um “se chover nessa época do ano vocês serão imaculados aqui”, foi bastante tranquilizador. Até começar a chover. No sertão. Em outubro. Nesse momento vale um recorte do livro Eclipses – da superstição à previsão matemática de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, onde ele relata a chegada dos ingleses à Sobral para observação do eclipse de 1919: (…) como a guerra com a Alemanha tinha acabado havia pouco tempo, a grande surpresa dos brasileiros, quando a expedição inglesa chegou ao Pará, foi saber que aquela custosa missão de astrônomos que vinha da Inglaterra tinha como meta verificar as teorias de um cientista alemão. Um jornal paraense publicou: “No lugar de tentar afirmar uma teoria alemã, os membros da expedição deveriam é conseguir fazer chover numa região que sofre de longos períodos de seca”. Por coincidência, alguns dias depois da chegada dos cientistas começou a chover, o que parece ter justificado a confiança do povo na ciência. Aparentemente a habilidade de fazer chover em regiões onde sofre com longos períodos de seca não é de exclusividade inglesa. Na véspera do eclipse de 14 de outubro não apenas choveu, como antes de chover apareceu um arco-íris magnífico, quase como um aviso de que o dia seguinte seria cheio de emoções. Apesar de temer o mesmo destino de Eddington em Passa Quatro, ainda havia esperanças. Chuva na véspera não foi algo ruim, de fato, poucas horas depois o tempo limpou, o que nos permitiu respirar - quase que literalmente, já que o calor por essas regiões estava beirando 40°C. No dia 14 o eclipse iria começar por volta das 15h e 30 minutos, o que nos dava uma folga para procurar um plano B caso tivesse amanhecido nublado. O plano B era Juazeiro do Norte há 4 horas de distância de Picos. Apesar de não estar muito longe, talvez fosse longe o suficiente da cobertura – improvável até então – de nuvens. O dia amanheceu sem uma única nuvem no céu do Piauí. Era impressionante de ver, já que nos dois dias anteriores havia uma cobertura considerável do céu, mas no dia do eclipse, não havia um AstroNova . N.40 . 2023 Condição das nuvens e o pôr do Sol no local da observação um dia antes do eclipse.

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16 único exemplar de nuvem no céu pela manhã. Confiantes o suficiente olhando para aquele céu azul, optamos por se manter em Picos, e seguimos a programação. Não demorou muito e por volta do meio dia as nuvens voltaram, não deixando nem sequer a chance de seguir para o plano B. Nesses momentos não existe ciência nem sabedoria ancestral que explique a esperança do astrônomo. Se inicialmente a batalha era pra ter 1 dia de Sol, isso mudou para algumas horas de abertura entre nuvens, seguido de “só precisamos de 2 minutos para observar o máximo”. As nuvens estavam seguindo o sentido Leste-Oeste no início do eclipse. Havia uma observação pública no IF, onde foi distribuído óculos para os estudantes e a população observar o evento. Como o sol estava alto na direção Oeste que ainda estava livre de nuvens, foi possível acompanhar bem esse início da parcialidade do eclipse. Quando o Sol estava com 30% do seu disco encoberto, uma camada de nuvens densas começaram a percorrer o Sol e então foi possível observar o andamento do eclipse apenas entre janelas, quando as nuvens davam trégua. Quando as camadas de nuvens ficaram densas o suficiente, ainda faltava por volta de 40 minutos para o máximo do eclipse. Como as nuvens estavam seguindo do sudoeste para nordeste, estava limpando o tempo do lado oposto ao Sol, e se as nuvens mantivessem esse rumo, logo limparia o suficiente para que fosse possível observar o máximo do eclipse “só dois minutos”. É difícil imaginar o que Eddington sentiu quando começou a chover na ilha do Príncipe durante sua excursão, ou o que passou pela cabeça de Morize (chefe da comissão brasileira em Sobral) quando faltando 4 minutos para a totalidade do eclipse, o céu limpou quase que milagrosamente tornando possível fazer as fotografias. O que certamente não aconteceu em nenhum dos casos mencionados foi o recuo das nuvens do seu curso natural. Naquele momento as nuvens deram ré. O céu estava limpando na direção do eclipse, a concentração de nuvens estava diminuindo na direção do Sol, quando o vento virou e as nuvens não apenas mudaram sua direção como também ficaram densas o suficiente para cair novamente AstroNova . N.40 . 2023 Céu na noite anterior ao eclipse: limpíssimo.

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observação do eclipse de 14 de outubro foi nada menos que empolgante, frustrante, curiosa, cansativa, e de pouca sorte. E justamente por isso que, sentados no aeroporto, esperando para voltar para casa, já começamos os preparativos para a próxima caça do eclipse solar. Porque afinal, não há ciência nem sabedoria ancestral que explique a esperança do(a) Astrônomo(a). Micheli Trindade Moura é graduada em Física (IFPR), mestre (UTFPR) e doutoranda (UFRGS) em Astronomia. 1317 algumas gotas de chuva. Os dois minutos de esperança se foram, e além de nós, a população estava em choque. Não apenas supostamente não era pra chover naquela época do ano, como também na previsão do tempo do dia não constava chuva. Com a chuva - no mínimo inesperada - do sertão do Piauí naquela tarde, as atenções se voltaram para outras regiões do país. Afinal, optamos pelo calor seco de 40°C com o Sol alto, do alto do sertão, e mesmo assim fomos atropelados pelo mau tempo. Sendo assim, o mínimo que esperávamos era muitas nuvens para quem optou por fazer a observação com todas as regalias do litoral nordestino. Teve registros do eclipse a partir de Tefé, de João Pessoa, de Natal, de Juazeiro do Norte (!), e até mesmo de Oeiras que fica pouco mais de 1h de carro de Picos. Após uma tarde cheia e uma noite um tanto quanto lastimável, descobrimos que tanto ao leste, oeste, norte e sul de onde estávamos foi possível observar ao menos um pouco a anelaridade, enquanto que nós fomos os únicos contemplados com a chuva no sertão, que impossibilitou toda e qualquer observação do máximo do eclipse.As nuvens nos acompanharam durante todo o caminho de volta de Picos para Juazeiro na manhã do dia seguinte. Se no dia anterior não havia uma única unidade de nuvem no céu, naquele domingo elas não faziam mais questão de se esconder, estava tudo encoberto desde a hora do máximo do eclipse no dia anterior. Acredito ser consenso entre nós que a jornada para AstroNova . N.40 . 2023 Início do eclipse em Picos. (foto: Wandeclayt M./Céu Profundo) Horário do máximo do eclipse solar anelar. Para saber mais: Astronomia e Astrofísica: Eclipses http://astro.if.ufrgs.br Leitura recomendada:

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Fases do eclipse anelar 14/10/2023 Araruna - PB - Brasil Astrofotógrafa: Beatriz Yordaky

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MAGNETOSFERA DA TERRA Rafael Cândido Jr. [email protected] É recorrente encontrarmos na grande mídia algumas notícias com forte teor sensacionalista sobre a inversão do campo magnético da Terra, ou que haverá uma intensa tempestade solar a qual o campo magnético terrestre não terá força suficiente para nos proteger. Neste artigo, vamos compreender o que de fato é a magnetosfera terrestre e qual a relação dela com o vento solar. Breve história do magnetismo Campos magnéticos são conhecidos desde muito tempo pela humanidade. Os primeiros registros de rochas magnéticas datam de 2000 anos atrás na dinastia Han (202 AEC – 22 EC). As primeiras bússolas eram feitas de magnetita, que são ímãs naturais que podem atrair ferro. Ao suspender estas pedras com o uso de um barbante, estas giravam de modo a apontar na direção norte-sul e não uma direção qualquer. Ao trabalhar a magnetita em 19 formato de agulhas, era possível coloca-las em uma vasilha com água e com isso saber a direção norte-sul. Um dos primeiros trabalhos sobre o estudo do magnetismo é datado de 8 de agosto de 1269 e denominado Epístola do magneto, escrita pelo estudioso francês Pierre de Maricourt. Nesta carta ele descreveu em detalhes sobre os experimentos com magnetismo, as propriedades dos ímãs (como os polos que se repelem e os que se atraem) GEOFÍSICA MAGNETOSFERA DA TERRA

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20 e foi a primeira descrição detalhada de uma bússola. Cerca de 330 anos depois, em 1600, foi publicado pelo médico e cientista inglês William Gilbert uma obra denominada resumidamente como De Magnete (Sobre os ímãs, em português). Além das detalhadas descrições de diversas experiências realizadas, Gilbert apresenta um modelo do planeta Terra denominado terrella, que consistia de uma esfera feita de magnetita; e de uma pequena seta de ferro magnetizado suspensa num ponto de apoio e denominada versorium, a qual ao aproximar da terrella, notou que a seta apontava para uma determinada direção. Se a terrella fosse girada, o versorium acompanhava esse giro sempre apontando na mesma direção, o norte- sul da terrella. Com isto, Gilbert deduziu que o que atraía as agulhas de bússolas na direção norte-sul não era a estrela Polaris, como se acreditava a muito tempo, e sim que a Terra tinha o próprio campo magnético nesta direção. Porém, Gilbert propôs que a origem deste magnetismo estava relacionada ao ângulo da eclíptica e à precessão dos equinócios. Campo geomagnético O campo magnético da Terra também é denominado como campo geomagnético, o qual se estende do interior da Terra para o espaço, onde interage com o vento solar, que é constituído por um fluxo de partículas eletricamente carregadas que emanam do Sol. Este campo é gerado por correntes elétricas que surgem devido ao movimento do fluido de ferro e níquel fundidos em um movimento denominado convecção e que tem origem em diferenças térmicas no núcleo externo da Terra. Este processo recebe o nome de geodínamo. O campo geomagnético desvia a maior parte do vento solar, cujas partículas carregadas destruiriam a camada de ozônio que protege a Terra da radiação ultravioleta. Estima-se que Vasilha com água e uma agulha imantada sobre uma rolha de cortiça. Fonte: Saskatchewan Science Centre. Registro detalhado da bússola na Epístola do magneto. AstroNova . N.40 . 2023

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21 Marte tenha perdido a maior parte de sua atmosfera primitiva, incluindo aí a água presente na atmosfera em forma de vapor, por não ter um campo magnético (quando o núcleo de Marte esfriou, encerrou o processo de geodínamo). Por ser uma grandeza vetorial, o campo magnético tem uma intensidade (também denominada por magnitude vetorial) e também tem uma direção e um sentido. Por convenção, define-se que em um ímã as linhas de campo magnético saem do polo norte do ímã e entram no polo sul. Estas linhas são visualizadas espalhando-se limalha de ferro em torno de uma barra de ímã. Os diferentes polos As bússolas sempre apontam na direção norte-sul. A parte da agulha da bússola que aponta para o norte do planeta é, por convenção, o polo magnético norte (pois aponta para a direção do norte geográfico, que também é definido pela posição da estrela Polaris). Como os polos de nomes opostos se atraem, então o polo norte da agulha da bússola é atraído pelo polo sul magnético terrestre, que fica no hemisfério norte da Terra. Da mesma forma, o polo norte magnético terrestre fica no hemisfério sul da Terra. Os polos geográficos definem o eixo de rotação da Terra. Uma linha imaginária que conecte os polos geográficos passa pelo centro da Terra, assim, estes polos são antípodas. Em relação aos polos magnéticos, estes não são antípodas. Uma linha imaginária que una os polos magnéticos passaria a aproximadamente 530 km do centro da Terra. Embora tenhamos hoje em dia a navegação auxiliada por satélites, ainda é utilizada a navegação por bússola e, para evitar confusões, os polos magnéticos da Terra são denominados pelo hemisfério em que se encontram e não pela sua polaridade magnética. Assim, o polo norte magnético é definido como Frontispício da obra De Magnete de William Gilbert. Versorium conforme apresentado no livro De magnete. Linhas de campo magnético observadas pelo espalhamento de limalhas de ferro em torno do ímã. AstroNova . N.40 . 2023

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