Acervo textual da Revista AstroNova
Edição 49 — páginas 1 a 20
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Assuntos identificados: espacial, catálogo, mecanismo, estrelas, objetos, interkosmos, terra, primeiro, engrenagens, espaço.
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REVISTA DE DIVULGAÇÃO DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS DA NATUREZA Ano 13 - Nº 49 -Março/2026 REVISTA DE DIVULGAÇÃO DE ASTRONOMIA E CIÊNCIAS DA NATUREZA ATIVIDADES NA ESTAÇÃO ESPACIAL TIANGONG AGENDA DOS LANÇAMENTOS ESPACIAIS ATIVIDADES NA ESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONAL PROGRAMA ESPACIAL INTERKOSMOS O MECANISMO DE ANTIKYTHERA A TERRA VIOLETA CATÁLOGOS ASTRONÔMICOS
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SUMÁRIO 09 25 Ano 13 | Edição nº 49 | 2026 17 29 Conselho editorial: Adriane Casteleira Maico A. Zorzan Rafael Cândido Jr. Wilson Guerra Redatores desta edição: Adriane Casteleira Rafael Cândido Jr. Wilson Guerra Artes: Adriane Casteleira Diagramação: Wilson Guerra Astrofotos: Adriane Casteleira Bruno Bonicontro Ricardo Francisco Pereira Sigmar Dantas EXPEDIENTE Capa: Nebulosa de Órion Ricardo Francisco Pereira PROGRAMA ESPACIAL INTERKOSMOS O MECANISMO DE ANTIKYTHERA A HIPÓTESE DA TERRA VIOLETA CATÁLOGOS ASTRONÔMICOS
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PRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTREPRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTRE Foguete: Falcon 9 (SpaceX) Satélites Starlink Local: base de Vandenberg Data: 20/03/2026 Foguete: Falcon 9 (SpaceX) Satélites Starlink Local: cabo Canaveral Data: 22/03/2026 Foguete: Soyuz 2 (Roscosmos) Progress MS-34 (mantimentos para ISS) Local: Cosmódromo de Baikonur Data: 26/04/2026 Foguete: New Gleen (Blue Origin) Satélites BlueBird Local: cabo Canaveral Data: 29/03/2026 Foguete: Soyuz 5 (Roscosmos) Vôo inaugural de nova geração Soyuz Local: Cosmódromo de Baikonur Data: 27/03/2026 RÚSSIARÚSSIA EUAEUA Foguete: Falcon 9 (SpaceX) Transporter-16, lançamento compartilhado Local: base de Vandenberg Data: 03/2026 Foguete: Soyuz 2 (Roscosmos) Progress MS-33 (mantimentos para ISS) Local: Cosmódromo de Baikonur Data: 22/03/2026 Foguete: Soyuz 2 (Roscosmos) Progress MS-35 (mantimentos para ISS) Local: Cosmódromo de Baikonur Data: 16/06/2026
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PRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTREPRINCIPAIS LANÇAMENTOS DO TRIMESTRE Foguete: Long March 7B (CNSA) Satélite da CASC Local: centro espacial de Jiuquan Data: 03/2026 Foguete: Jielong (CASC) Satélite da CASC Local: plataforma marítima Data: 2/03/2026 Foguete: Zuque 2E (LandSpace) Satélite de observação da Terra Local: centro espacial de Jiuquan Data: 03/2026 CHINACHINA Foguete: Spectrum (Isar Aerospace) Lançamento inaugura (2a tentativa) Local: Andoya (Noruega) Data: 23/03/2026 Foguete: Vega-C (Ariane Space) Intelsat 45, conjuntos de satélites de comunicação Local: Guiana Francesa Data: 08/04/2026 EUROPAEUROPA Foguete: Kinetica-2 (CAS Space) Lançamento inaugural Local: centro espacial de Jiuquan Data: 03/2026
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Atividades de dezembro/2025 a março/2023 Atividades de dezembro/2025 a março/2023 Soyuz MS-29: Roscosmos (14/07/2025)Soyuz MS-29: Roscosmos (14/07/2025) Verificação do traje espacial antes de uma atividade extraveicular. Verificação do traje espacial antes de uma atividade extraveicular. O astronauta Mike Fincke estuda o comportamento de partículas em fluidos na microgravidade. O astronauta Mike Fincke estuda o comportamento de partículas em fluidos na microgravidade. O astronauta Chris Williams estuda amostras de bactérias patogênicas. O astronauta Chris Williams estuda amostras de bactérias patogênicas. Próximas ExpediçõesPróximas Expedições Crew-13: SpaceX (10/2026)Crew-13: SpaceX (10/2026) Tripulação atualTripulação atual ESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONALESTAÇÃO ESPACIAL INTERNACIONAL
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Estação Espacial TiangongEstação Espacial Tiangong Principais atividades: dezembro/2025 a março/2026Principais atividades: dezembro/2025 a março/2026 Tripulação atual (Shenzhou-21)Tripulação atual (Shenzhou-21) Cultivo de tomates no espaço.Cultivo de tomates no espaço. Taikonautas realizam experimentos médicos no ambiente de microgravidade. Taikonautas realizam experimentos médicos no ambiente de microgravidade. Com auxílio do braço robótico, os taikonautas instalaram equipamentos durante caminhada espacial. Com auxílio do braço robótico, os taikonautas instalaram equipamentos durante caminhada espacial.
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Nebulosa da Carina 16/02/2026 Mariápolis/SP - Brasil Astrofotógrafo: Sigmar Dantas Nebulosa da Carina 16/02/2026 Mariápolis/SP - Brasil Astrofotógrafo: Sigmar Dantas
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www. RECURSOSdeFÍSICA .com.br Página que socializa produção de recursos de ensino adaptados à sala de aula e aos professores. Material produzido nas disciplinas do curso de Licenciatura em Física da UEM e em outros projetos coordenados pelo prof. Dr. Ricardo Francisco Pereira.
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09 Rafael Cândido Jr. [email protected] A Estação Espacial é atualmente o maior resultado de ações e acordos diplomáticos na área espacial, mas não é o primeiro. Neste artigo vamos conhecer um pouco do programa espacial que, além de desenvolvimento científico, levou pessoas de outras nacionalidades ao espaço. Conselho Interkosmos Em abril de 1965, a União Soviética (URSS) enviou uma proposta para governos de países socialistas para realizar uma reunião dedicada a unir esforços no estudo e exploração do espaço. Os países convidados foram: Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, China, Coréia do Norte, Cuba, Hungria, Iugoslávia, Mongólia, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e Vietnã. A reunião foi realizada em Moscou em novembro daquele ano, e a maioria dos países convidados aceitaram a proposta. Assim, em 1966, representantes da Alemanha Oriental, Bulgária, Cuba, Hungria, Mongólia, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e Vietnã assinavam com a União Soviética a criação do Conselho para Cooperação Internacional para exploração e uso do espaço exterior para fins pacíficos, nomeado Conselho Interkosmos, sob coordenação da Academia de Ciências da URSS.O objetivo deste conselho era coordenar, planejar atividades espaciais conjuntas e organizar a cooperação no estudo e exploração do espaço com ASTRONÁUTICA INTERKOSMOSINTERKOSMOS O primeiro programa espacial internacionalO primeiro programa espacial internacional
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- estudo das propriedades físicas do espaço sideral - meteorologia espacial 10 países estrangeiros, incluindo pesquisa conjunta sobre espaçonaves automáticas e voos espaciais tripulados. O programa Interkosmos existiu de 1967 até o colapso final da URSS em 1991. Desenvolvimento científico Em 1967 foi adotado um programa conjunto de trabalho sobre a exploração e o desenvolvimento de tecnologia espacial. Este programa previa a preparação, implementação e processamento conjunto dos resultados da pesquisa espacial nas seguintes áreas: - comunicações espaciais - biologia e medicina espacial - sensoriamento remoto da Terra Um total de 26 satélites da série Interkosmos e 11 foguetes geofísicos da série Vertikal foram desenvolvidos. Eles foram equipados com instrumentos criados pelos países participantes do programa. Os satélites criados no âmbito dos programas bilaterais de cooperação soviético- polonesa e soviético-búlgara, além de um número de série na série Interkosmos, receberam seus próprios nomes, respectivamente, Kopernik-500 e Interkosmos- Bulgária-1300. Réplica do satélite Interkosmos 1. AstroNova . N.49 . 2026 Satélite Interkosmos 6. Lançado em 07/04/1972 para estudar raios cósmicos de alta energia. Desenvolvido por cientistas da Hungria, Mongólia, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e URSS; este satélite tinha uma cápsula de retorno dos circuitos eletrônicos à Terra.
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11 O primeiro satélite, Interkosmos-1 foi lançado em 14/10/1969 com participação da Alemanha Oriental, Polônia e Tchecoslováquia. Tinha a função de estudar as emissões solares e as auroras polares. O último satélite foi o Interkosmos-25, lançado em 18 de dezembro de 1991, teve participação da Alemanha (recém-unificada), Bulgária, Hungria, Polônia e Tchecoslováquia (que ainda era um país unificado), sendo o último satélite lançado pela URSS. Quando a URSS acabou, estava sendo construído o satélite Interkosmos-26, que foi lançado em 1994 e recebeu o nome de CORONAS-1, pois seria utilizado no estudo da coroa solar. Além dos satélites Interkosmos, os países participantes participaram do desenvolvimento de satélites de pesquisa da série Kosmos e Prognoz; dos satélites meteorológicos Meteor, dos satélites de comunicação Molniya e Gorizont. Houve também participação nos satélites interplanetários Venera-15, Venera-16 e Vega (destinada a estudar o cometa Halley). Voos tripulados Em reuniões realizadas em Moscou entre julho e AstroNova . N.49 . 2026
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12 Figura 9 12 setembro de 1976, foram incluídos no Interkosmos os voos tripulados. Foi decidido que o treinamento de candidatos a cosmonautas seria organizado pelo Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin e os comandantes da tripulação seriam cosmonautas-pilotos da URSS. Estes voos tripulados incluíam pesquisas nas áreas de biologia e medicina espacial, estudo e mapeamento da superfície terrestre, astrofísica, ciência dos materiais e experimentos tecnológicos em condições de microgravidade. Outros países, inclusive não socialistas, expressaram interesse em participar: França, Índia, Síria, Afeganistão, Japão, Reino Unido e Áustria apresentaram candidatos para o voo tripulado. A Finlândia foi convidada, porém declinou e a Suécia manifestou interesse apenas em desenvolvimento de satélites. As tabelas 1, 2 e 3 apresentam os cosmonautas que viajaram às estações espaciais Salyut 6, Salyut 7 e Mir e seus respectivos países, datas de lançamento e a missão da qual fizeram parte para cada uma das estações espaciais utilizadas no programa. Cada tabela apresenta como complemento as fotos dos cosmonautas com sua data de nascimento e, quando houver, a data de falecimento. Curiosidades - Vladimir Remek foi a primeira pessoa a viajar para o espaço sem ser cidadão dos EUA ou da URSS. Na época ele era tchecoslovaco. Hoje, ele é cidadão tcheco. - Sigmund Jähn foi o primeiro alemão e o único cosmonauta da antiga Alemanha Oriental. - Georgi Ivanov permaneceu apenas 1 dia e 23 horas no espaço pois a Soyuz 33 não conseguiu acoplar na estação espacial Salyut 6. - PhamTuân, vietnamita, foi o primeiro asiático. - Arnaldo Tamayo Mendez, cubano, foi o primeiro negro e o primeiro latino- americano. - Todos os cosmonautas, exceto Georgi Ivanov, permaneceram por 7 dias e entre 20 a 23 horas no espaço. - Jean-Loup Chrétien foi o primeiro francês e primeiro europeu ocidental a viajar AstroNova . N.49 . 2026
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13 ao espaço. Também é o único cosmonauta do Programa Interkosmos que realizou mais de um voo espacial estando na Salyut 7 (1982), Mir (1988) e no ônibus espacial Atlantis (STS-86, 1997) realizando uma atividade extraveicular (ou seja, fora da nave). É a única pessoa que realizou missões espaciais pela URSS e pelos EUA. - Rakesh Sharma, além de ter sido o primeiro cidadão da Índia, é a primeira pessoa a praticar ioga no espaço. - O tempo de permanência no espaço de ambos os cosmonautas foi de 7 dias e 22 horas. - Todos os cosmonautas permaneceram por 7 dias e entre 20 a 23 horas no espaço. As exceções foram os cosmonautas Aleksandr Aleksandrov (9 dias e 20 horas) e Abdul Ahad AstroNova . N.49 . 2026
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Mohmand (8 dias e 20 horas). - A Bulgária foi o único país do programa que enviou dois cosmonautas em diferentes missões. - Muhammad Faris (Síria) e Abdul Ahad Mohmand (Afeganistão) tornaram-se refugiados das guerras civis em seus países. Faris refugiou-se com sua família para a Turquia em 2016, onde faleceu em abril de 2024, na cidade de Gaziantep. Mohmand refugiou-se para a Alemanha em 1992 e obteve cidadania alemã em 2003. Hoje ele trabalha em uma gráfica em Stuttgart. - Toyohiro Akiyama foi o primeiro civil a participar do programa. Anteriormente, todos os cosmonautas tinham formação militar em seus países. Sua profissão era jornalista; hoje ele é professor aposentado da Universidade de Kyoto. Foi chamado de anti-herói do espaço por conta de passar muito mal e reclamar muito da abstinência do vício em cigarros (ele teve que parar de fumar nos treinamentos para o voo espacial). - Helen Sharman foi a primeira mulher da Europa ocidental e primeira cidadã do Reino Unido a viajar ao espaço. Foi a segunda civil a voar pelo Interkosmos. Conseguiu a vaga através de uma iniciativa do Reino Unido denominada Projeto Juno, que teve 13.000 pessoas interessadas em se tornar o primeiro cidadão britânico no espaço. Na época do voo, Helen já tinha concluído o doutorado em Química pela Universidade de Londres. - Franz Viehböck, austríaco, foi o último cosmonauta do Interkosmos. Também civil e com formação científica, engenheiro eletricista. Tornou-se pai durante a missão na Mir. Legado da Interkosmos O programa Interkosmos encerrou as atividades com o fim da URSS. O seu legado está muito relacionado com o das estações espaciais Salyut e Mir. Além do 14 Logotipo do programa espacial Interkosmos. AstroNova . N.49 . 2026 desenvolvimento de tecnologias espaciais, os voos com cosmonautas de outras nacionalidades tornaram-se referência para muitos jovens que tinham o sonho de estudar assuntos correlatos à tecnologia espacial. Após 1991, ocorreu o acordo Shuttle-Mir, em que os ônibus espaciais dos EUA acoplariam com a estação Mir e levariam em sua tripulação, em algumas missões, astronautas de outras nacionalidades, porém com a viagem paga e desenvolvimento de tecnologia para os países que comprassem a passagem. Entretanto, isto abriu caminho para os acordos de uso da Estação Espacial Internacional. Rafael Cândido Jr. é graduado e mestre em Engenharia Química. Integra o grupo de astronomia Arcturus, da UFABC. Para saber mais: Interkosmos – The Eastern Bloc’s Early Space Program. Colin Burgess, Bert Vis. Springer Praxis.
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17 Wilson Guerra [email protected] O Mecanismo de Antikythera (ou Anticítera, em português) é um de inúmeros artefatos arqueológicos encontrados no começo do século XX em uma embarcação romana naufragada próximo à ilha grega que deu o nome à máquina. Estudos das inscrições presentes no aparelho apontam que sua construção deve ter ocorrido por volta de 205 AEC. O objetivo e funcionamento do mecanismo só começaram a ser entendidos a partir da metade do século XX, quando imagens de dentro dos fragmentos começaram O MECANISMO DE ANTIKYTHERAANTIKYTHERAANTIKYTHERA HISTÓRIA DA ASTRONOMIA a ser obtidas por meio de radiografias. As imagens mostraram engrenagens internas de bronze, revelando uma sofisticação técnica surpreendente para a época em que a máquina foi construída. Atualmente se sabe que o Mecanismo de Antikythera era uma máquina de concepção geocêntrica composta por um complexo sistema de engrenagens capaz de prever posições celestes, fases da Lua, eclipses e calcular calendários. Suas medidas eram similares as de uma caixa de sapatos, o que lhe garantia mobilidade e facilidade de transporte não muito diferente de um "laptop". Sua face frontal apresentava um painel com ponteiros que indicavam posição do Sol e da Lua em relação às constelações. Há indícios de que os cinco planetas conhecidos na época (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) também tinham suas posições indicadas. A precisão do aparelho incluía os movimentos retrógrados deste planetas (epiciclos) e as irregularidades da órbita lunar. A face posterior contemplava dois calendários dispostos um acima do outro, com inscrições distribuídas em espiral e seus respectivos ponteiros indicadores. O superior correspondia a um calendário anual e o inferior UM PLANETÁRIO PORTÁTIL EM ENGRENAGENS DE BRONZE
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era um previsor de eclipses. A autoria do Mecanismo poder ser de Arquimedes, mas isto ainda não é consenso entre os pesquisadores. Os fragmentos originais, juntamente com propostas de réplicas modernas da máquina, estão no Museu Arqueológico Nacional de Atenas. A DESCOBERTA Em 1901, quando mergulhadores gregos encontraram uma embarcação naufragada, não se tinha idéia dos tesouros que ali se encontravam: estátuas de mármore e bronze, jóias, moedas, ornamentos. Estima-se que a embarcação (que podia ser um navio comercial ou até moderna. Mas quando foi identificada na sua superfície uma expressão em grego arcaico escrito “raio de Sol”, percebeu-se que se tratava de um dispositivo da antiguidade. As primeiras especulações era que fosse um instrumento astronômico ou náutico usado pelos antigos. Mas as suspeitas de que se tratava de algo muito mais complexo não demoraram a aparecer. AS ENGRENAGENS As surpresas surgiram na década de 1950 quando radiografias feitas pelo pesquisador Karakalos mostraram inúmeras engrenagens de bronze nos fragmentos do Mecanismo. Derek Price lançou um estudo detalhado que revolucionou nossa compreensão sobre esta piratas), afundou entre 60- 50 AEC. Mas o que chamou a atenção era uma peça petrificada que expunha claramente uma grande engrenagem. Chegou-se a pensar que se tratava de um relógio mecânico que, por acaso, caiu no mesmo local de alguma embarcação Os 82 fragmentos do Mecanismo, que se encontram no Museu Nacional de Atenas. Réplica do Mecanismo de Antikythera, construída por Michael Wright: painel frontal (à esquerda) e painel posterior. AstroNova . N.49 . 2026 18
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Haviam cerca de 30 engrenagens de bronze no Mecanismo encontrado no mar, mas conjectura-se mais de 60 originalmente. posição do eixo de rotação da Terra, denominado precessão dos equinócios. Mas na antiguidade as constelações zodiacais eram apenas 12. Na reveladora pesquisa de Derek Solla Price, publicado na década de 1970, o pesquisador propôs que havia um ponteiro que indicava a data e, ao mesmo tempo, mostrava a posição do Sol nas constelações. Outro ponteiro menor indicava a posição da Lua. Havia uma manivela na lateral da máquina conectada a uma engrenagem em forma de coroa com cerca de 48 dentes. Esta por sua vez transmitia o movimento para a grande engrenagem claramente visível no fragmento maior do Mecanismo. Chamada de B1, esta engrenagem devia ter 226 dentes. Rigidamente conectada a ela estava B2, com 64 dentes, e a partir dela um conjunto de engrenagens que fazia girar todo o sistema, culminando no eixo do ponteiro que indicava a posição da Lua. A relação de transmissão (taxas de rotação) desse conjunto ou "trem" de engrenagens era composto de tal forma que a cada 19 voltas em B1 produzia 254 voltas no ponteiro lunar. Isto O maior fragmento do Mecanismo, chamado de fragmento A (direta), e sua radiografia revelando um complexo sistema de engrenagens (esquerda). AstroNova . N.49 . 2026 19 impressionante máquina, em 1974. Eram ao menos 30 engrenagens de bronze que indicavam a posição do Sol e da Lua em relação às consteções, na parte frontal do aparelho. Na parte de trás haviam dois mostradores em forma de espiral: o superior era um calendário e o inferior, um previsor de eclipses! O CICLO 19x254 O painel frontal do Mecanismo tinha dois círculos concêntricos totalizando cerca de 16cm de diâmetro. O círculo mais externo tinha a contagem dos 365 dias do ano, já usados no calendário egípcio. O círculo interno continha as dose constelações zodiacais, aquelas que são ocupadas pelo Sol durante seu movimento anual aparente. Atualmente o Sol percorre 13 constelações devido a um fenômeno que muda a
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novas descobertas incluíram inscrições na superfície do fragmento que permitiram entender mais sobre o mecanismo. São mais de 3.500 glifos encontrados. Para o matemático Tony Freeth, do grupo de pesquisas internacional do Mecanismo (AMRP - Antikythera Mechanism Research Project), o aparelho já estaria completamente compreendido. Mas nem todos os pesquisadores tem a mesma opinião. Fases da Lua Michael Wright descobriu nos anos 2000 que o Mecanismo de Antikythera tinha um recurso para indicar as fases da Lua: uma esfera giratória metade branca e metade preta que mostrava a fase lunar na data apontada pelo ponteiro do Sol. Wright chegou a reconstruir uma réplica do Mecanismo, em bronze, incluindo o dispostivo e engrenagens da fase lunar. Anomalia lunar Devido a órbita lunar não ser perfeitamente circular, mas se aproxima muito de uma elipse, seu movimento pelo céu em relação às estrelas fixas (constelações) não se dá de maneira regular. Ora o movimento da Lua se acelera, ora desacelera, até completar um ciclo e repetir o movimento. Esta irregularidade no movimendo da Lua é chamada de anomalia lunar, e é conhecida desde a antiguidade. Tony Freeth percebeu que havia um conjunto de Fig. 1 Trem de engrenagens principal, que reproduz 254 ciclos lunares siderais a cada 19 anos. O ponteiro solar é ligado a engrenagem B2 e o ponteiro lunar à engrenagem B4. O eixo do ponteiro lunar passa por dentro do eixo do ponteiro solar, que é constituído por um tubo. Uma esfera girante com os dois hemisférios de cores diferentes indicam a fase da Lua. Réplica construída por Michael Wrght. representa exatamente o 19 anos por 254 ciclos siderais da Lua, ou mês sideral (figura 1). Desta forma a máquina reproduzia o ciclo do Sol e da Lua no fundo de constelações! Porteriormente, Michael Wright, engenheiro mecânico e curador de museus de ciência do Reino Unido, descobriu em 2005 mais uma engrenagem de 32 dentes entre D2 e B4, que tinha a função de fazer com que o ponteiro lunar girasse no sentido horário. MAIS DESCOBERTAS A partir de 2000, com a tomografia computadorizada, foram encontrados detalhes nas engrenagens no Mecanismo. Com a técnica de mapeamento de texturas, AstroNova . N.49 . 2026 20
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engrenagens no Mecanismo original que eram idênticas em número de dentes, estavam tocadas uma na outra mas com uma pequena descentralização. Uma delas possuía um pino e a outra, uma fenda, de modo que se encaixavam. Assim, a rotação da engrenagem com o pino era transmitida de maneira diferencial para e engrenagem com a fenda: o pino na parte mais externa transmitia um movimento desacelerado, e o pino na posição oposta, ficava na parte mais interna, transmitindo uma rotação mais acelerada (figura 2). O conjunto era construído de tal forma que esse sistema simulava exatamente a anomalia lunar! Este conjunto recebeu o nome de engrenagens epicíclicas, e se mostrou tão promissor que os pesquisadores cogitaram que os indicadores do painel frontal que representavam o movimento dos planetas poderiam usar uma técnica semelhante (figura 3). As engrenagens para os planetas foram perdidas, mas sabemos que existiram porque as inscrições recuperadas indicam estes planetas, descrevendo inclusive os epiciclos (momentos que o movimento de determinado planeta no céu se “inverte”, visto da perspectiva da Terra). Outra evidência de que haviam engrenagens epicíclicas para os planetas são hastes e orifícios de encaixe nos braços da grande engrenagem B1. OS CALENDÁRIOS Na parte posterior do Mecanismo de Antikytera haviam dois calendários elegantemente dispostos em espiral, com ponteiros auxiliares na parte interna do layout destes painéis. Calendário Metônico É um calendário lunissolar, ou seja, que leva em consideração tanto o movimento do Sol como da Lua. O calendário judaico é um tipo de calendário lunissoar. Ele distribuía 235 meses sinódicos (período da fase lunar) dispostos ao longo de 19 anos em uma espiral de 5 voltas. Em seu interior haviam dois relógios auxiliares. O Calíptico indicava quando se deveria descontar algum dia da leitura do calendário, o que lhe muita precisão. E o Olímpico, que indicava os locais dos jogos Pan- Helênicos, de grande importância cultural para os gregos. Fig. 2 Sistema pin and slot (pino e fenda) revelado por imagens usando técnica PTM (FREETH, 2013). Fig. 3 Acima: Marte e Júpiter. Abaixo: Saturno e Lua. Os números representam a quantidade de dentes das engrenagens (FREETH, 2013). AstroNova . N.49 . 2026 21
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Calendário Saros O Saros era um previsor de eclipses. Distribuía 223 meses sinódicos (ciclo de fases da Lua) em 18 anos, período de repetição de ocorrência de eclipses. Era dispostos em uma espiral de 4 voltas. Nele haviam inscrições que indicavam se o eclipse apontado era solar ou lunar. No caso dos eclipses lunares, indicava se ocorreria de dia ou de noite, e se era parcial ou total. Também apontava uma estimativa do horário de ocorrência do eclipse. No interior do layout do Saros havia um relógio auxiliar chamado Exeligmos. Ele indicava se era necessário ou não acrescentar 8h ou 16h na leitura do horário apontado no ponteiro do Saros. O MECANISMO COMPLETO A figura 4 traz uma proposta para a aparência do Mecanismo: na frente o planetário, com ponteiros indicando Sol, Lua, e os 5 planetas conhecidos na antiguidade (Mercúcio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno). Atrás os calendários Metônico e Saros. Em 2021 Tony Freeth e sua equipe propôs um novo modelo para o painel frontal do mecanismo. Os planetas seriam representados por gemas fixadas em anéis giratórios, e não por ponteiros, como se pensava até então (figura 5). AUTORIA DO MECANISMO Escritos de historiadores antigos relatam que Arquimedes estaria trabalhando na construção de uma “magnífica máquina do Cosmos”. Inscrições e datas dos eclipses recuperados indicam que o Mecanismo foi construído por volta de 205 AEC, data compatível com a vida de Arquimedes. O sábio é assim o principal candidato a projetista da máquina. Alguns autores apontam a chance de que a construção do Mecanismo deve ser atribuída a Apolônio de Perga ou a Hiparco de Nicéia. Wilson Guerra é professor. Graduou-se em Física, tem especialização em Astrobiologia e é mestre em Educação para a Ciência. Referências: FREETH, T., Building the Cosmos in the Antikythera Mechanism, 2013 JONES, A.,Like Opening a Pyramid and Finding an Atomic Bomb, 2018 WRIGHT, M.T., The Antikythera Mechanism and The Early History of the Moon-phase Display, 2006 FREETH, T., A Model of the Cosmos in the ancient Greek Antikythera Mechanism, 2021 Os calendário Metônico (acima) e Saros (abaixo). Fig. 4 A aparência completa do Mecanismo de Antikytera (JONES, 2018). AstroNova . N.49 . 2026 Fig. 5 Nova proposta para o painel frontal (FREETH, 2021). 22
