Acervo textual da Revista AstroNova
Edição 35 — páginas 21 a 40
Esta página apresenta o texto extraído do PDF para tornar a edição pesquisável e acessível a leitores, navegadores e assistentes de IA. Consulte o PDF original para preservar diagramação, imagens, fórmulas e créditos.
Assuntos identificados: cometa, cometas, astronomia, núcleo, halley, solar, programa, missão, sistema, projeto.
Página 22
22 correr bem, o Capstone deve ini- ciar suas funções em outubro. Artemis 1, 2, 3 e o HLS As três primeiras missões devem ser as cruciais para o programa Ar- temis. O foguete SLS da primeira missão, Artemis-1, está passando por testes finais já na plataforma de lançamento. Muitos proble- mas, entretanto, estão desafian- do a equipe de engenheiros. Seu lançamento já foi adiado várias ve- zes em 2022. Na última tentativa, vazamentos de hidrogênio líquido no sistema de abastecimentos do estágio central do foguete suspen- deram a decolagem. Os engenhei- ros da Nasa substituíram os dis- positivos correspondentes, tanto da torre quanto do foguete. Um teste nessas substituições será realizado dia 21 de setembro. Se tudo correr bem, o SLS irá deco- lar dia 27. O objetivo é levar cáp- sula Órion ainda sem tripulação, mas com equipamentos e bone- cos antropométicos, para circu- navegar a Lua e retornar à Terra de modo autônomo. Um conjun- to de nanossatélites devem ir de carona. A maioria deles é destina- da a realizar uma série de estudos preliminares da Lua, coletando in- formações para a Nasa continuar com o programa. Num vôo espa- cial total de 6 a 8 semanas, a nave Órion deve entrar na órbita lunar, dar duas voltas retrógradas (no sentido oposto ao da rotação da Lua) e retornar à Terra. Se a missão Artemis-1 for bem sucedida, a Nasa deverá lançar a missão Artemis-2 em 2024. Na se- gunda missão, a nave Órion leva- rá tripulação, mas ainda não reali- zará um pouso na Lua. O objetivo é testar todos os sistemas com astronautas a bordo, circundar a Lua e retornar com segurança à Terra. A Boeing, contratada da Nasa, trabalha na construção do estágio central do SLS que fará o lançamento da missão Artemis-2. Deverá estar concluído em março de 2023. Finalmente, apenas na missão Ar- temis-3 é que astronautas da Nasa deverão pousar na superfície da Lua, mais de 40 anos depois da missão Apollo-17. Quando? Ainda é complicado estimar uma data. O ano de 2024, proposto inicialmen- te, já está totalmente fora de co- gitação. A Nasa passou a divulgar 2025 mas muitos analistas apos- tam em “não antes” de 2026. Tudo depende do andamento das mis- sões anteriores. Mas parece claro que, por parte do governo ameri- cano, há um esforço para que esse pouso ocorra antes do final desta década. Seja como for, é na terceira mis- são que o HLS (Human Landing System, ou Sistema Tripulado de Pouso) deverá finalmente tocar o A SpaceX recebeu U$ 2,89 bilhões para desenvolver uma versão da Starship Lunar para a missão Artemis-3. O Blue Moon da Blue Origin é um candidato a fornecer serviços de pouso lunar no HLS da Nasa após o Artemis-3.
Página 23
23 solo da Lua. HLS é o nome dado pela Nasa a qualquer veículo do programa Artemis que pousar na Lua com astronautas. Depois de uma concorrida disputa entre bi- lionários, a empresa SpaceX de Elon Musk ganhou o cobiçado con- trato de quase U$ 3 bilhões para inaugurar o HLS. Musk anunciou que uma adaptação da Starship, a Starship lunar, deverá prestar o serviço de pouso para a Nasa. Como ela não retornará de novo para a superfície da Terra, não precisará de haletas aerodinâmi- cas nem de escudo térmico. Mas seu funcionamento é bem com- plicado, e precisará contar com tecnologias ainda em desenvolvi- mento que nunca foram testadas. O complexo organograma prevê o lançamento de um tanque orbital (storage depot) em torno da Ter- ra, seguido de vários lançamentos de uma Starship de abastecimen- to para carregá-lo de propelentes. Só então a Starship lunar é lança- da, acopla-se ao tanque orbital para abastecer e parte para a Lua. A Starship, entretanto, parte sem A Nasa selecionou 13 regiões no entorno do pólo Sul da Lua para o pouso tripulado da missão Artemis-3.
Página 24
24 astronautas e aguardará na órbita da Lua pela chegada de uma nave Órion, lançada pelo SLS, com 4 as- tronautas. Dois deles então pas- sarão para a Starship e pousarão próximo do polo Sul da Lua. Rea- lizarão atividades durante uma ou duas semanas, instalando equi- pamentos e experimentos, e re- tornarão à Starship para, em ór- bita da Lua, voltar para a Órion. É a Órion, então, que traz os astro- nautas de volta à Terra. Alguns detalhes ainda permanecem em aberto. Não se sabe por exemplo se a Órion vai se acoplar direta- mente com a Starship lunar para a movimentação de tripulação, ou se ambas as naves se acopla- rão à estação Gateway para isso, caso a estação já esteja operacio- nal. É importante frisar que antes da Starship lunar estrear na mis- são Artemis-3, a SpaceX deverá re- alizar um pouso não tripulado na Lua, um ensaio geral exigido pela Nasa a todas as empresas contra- tadas para desenvolver um HLS. Artemis Base Camp As missões Artemis-4 e subse- quentes deverão ser dedicadas à construção e operação de instala- ções na superfície da Lua chama- da Artemis Base Camp. O local es- colhido é próximo ao polo Sul da Lua, uma região que não apresen- ta grandes extremos de tempera- tura e tem a Terra sempre visível. Além isso há evidências de que água congelada e outros materiais estejam no subsolo e em crateras da região polar. A Nasa tem assi- nado vários contratos subsidiados este ano com empresas america- nas de tecnologia e aeroespacial que vão desde desenvolvimento de baterias nucleares até novos ji- pes robóticos e tripulados e outra geração de trajes espaciais. O pró- prio HLS deverá contar com ou- A partir da próxima década, a estação Gateway dará suporte a atividades permanentes na superfície da Lua (Artemis Base Camp) e poderá testar tecnologias para viagens ao planeta Marte.
Página 25
25 Dificuldades e controvérsias O Artemis é ambicioso e inspi- rador, mas não é unanimidade no programa espacial america- no. Uma das críticas tem sido aos gastos governamentais elevadís- simos com as nave Órion e prin- cipalmente com o foguete SLS. Es- tima-se que até 2025 o programa Artemis terá consumido U$ 90 bi- lhões. A maior parte desse valor, gasto desde programa Constella- tion até a configuração atual do Artemis, é com o SLS. Lori Garver, que foi diretora adjunta da Nasa, revelou recentemente em maté- ria publicada na revista Scientific American que acredita que a Nasa deveria estar usando todo seu po- tencial para missões inovadoras e não na repetição de feitos já reali- zados. Mas afirma que ainda “há muito apoio político para o SLS”, dando a entender que o lobby da indústria tem grande peso nas de- cisões da Nasa. Corrida científica à Lua Mas agora ir à Lua para ficar é ine- vitável. Apesar das razões não terem a urgência da corrida es- pacial do século passado, ao me- nos desta vez a motivação é bem mais nobre do que concorrência geopolítica. Finalmente a Ciência é a diretriz geral. E se há concor- rência, ela também é científica. Em 2021 China e Rússia firmaram acordo da Base Lunar Científica In- ternacional (IRLS), publicando um detalhado cronograma para ma- pear a Lua até o fim da década e construir uma base de pesquisas a partir de 2030. Recentemente os Emirados Árabes Unidos assina- ram acordo com a China para levar um rover lunar na missão chinesa Chang’e-7, expandindo o caráter internacional da ILRS. Parece-nos muito claro que na próxima déca- da a humanidade sai de seu ber- ço, como gostaria o teórico da as- tronáutica moderna Konstantin Tsiolkovski há um século. Fontes: Nasa: www.nasa.gov/artemis SpaceX: https://www.spacex.com/vehicles/ starship/ Blue Origin: https://www.blueorigin.com/ blue-moon/ Scientifc American: https://sciam. com.br/o-programa-e-precario-diz-ex- administradora-adjunta-da-nasa-sobre-a- missao-artemis-i/ CNSA: http://www.cnsa.gov.cn/english/ n6465645/n6465648/c6812150/content. html Wilson Guerra é professor, licenciado em Física, com especialização em Astrobiologia e mestre em Educação Científica. tras espaçonaves de transporte além da Starship Lunar, como foi publicado no site da agência em 16 de setembro. O projeto Blue Moon, que a Blue Origin de Jeff Be- zos perdeu para Elon Musk na con- corrência da Artemis-3, é cotada para continuidade do programa. O Blue Moon contará com siste- mas de naves menores, de lança- mento e operação mais simples e menos arriscadas, que poderiam atuar em missões mais pontuais e direcionadas. As instalações da Artemis Base Camp representam o ápice do projeto, fixando de vez astronau- tas na Lua em pesquisa científica pura, engenharia e até em ativida- des econômicas no ramo da mine- ração. Mas tudo isso estará ape- nas começando somente a partir de 2030. “A diretriz geral do programa Artemis, finalmente, é a Ciência”
Página 26
26 AS PPRIMEIRAS IMAGENS DO TELESCÓPIO ESPACIAL JAMES WEBB No dia 12 de julho de 2022, em uma coletiva de imprensa, em parceria da Nasa, ESA (European Space Agency) e CSA (Canadian Space Agency), foram reveladas as primeiras imagens capturadas com os diversos instrumentos do Telescópio Espacial James Webb. Foram quatro imagens e uma espectroscopia, revelando segredos do universo nunca antes alcançados pela ciência. TELESCÓPIO ESPACIAL
Página 27
27 Nebulosa Carina Esta imagem, chamada de Penhascos Cósmicos, é a borda de uma região jovem e próxima de formação de estrelas chamada NGC 3324 na Nebulosa Carina. Trata-se de uma cavidade gasosa dentro da NGC 3324, e os “picos” mais altos possuem cerca de 7 anos-luz de altura. A área cavernosa foi esculpida na nebulosa pela intensa radiação ultravioleta e ventos estelares de estrelas jovens extremamente massivas, quentes e localizadas no centro da bolha, acima da área mostrada nesta imagem.
Página 28
28 SMACS 0723 Esta foi a primeira imagem exibida ao público, no dia 11 de julho, pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Trata-se do aglomerado de galáxias SMACS 0723 e é a imagem infravermelha mais profunda e nítida do universo distante já feita até hoje. Para se ter ideia, esta fatia do vasto universo cobre um pedaço de céu aproximadamente do tamanho de um grão de areia.
Página 29
29 Exoplaneta WASP-96 b Os primeiros dados de espectroscopia do JWST capturou a assinatura distinta da água, além de evidências de nuvens e neblina, na atmosfera de um planeta gigante gasoso orbitando uma estrela parecida com o Sol. A observação, que revela a presença de moléculas de gás específicas com base em pequenas diminuições no brilho de cores precisas da luz, é a mais detalhada de seu tipo até hoje, demonstrando a capacidade sem precedentes do Webb de analisar atmosferas a centenas de anos-luz de distância.
Página 30
30 Quinteto de Stephan Esta imagem é um enorme mosaico de mais de 150 milhões de pixels, contruído com mais de 1.000 arquivos separados e fornecem novas ideias de como as interações galácticas podem ter infl uenciado a evolução das galáxias pelo universo. Esta imagem mostra detalhes nunca antes vistos, como as caudas de gás, poeira e estrelas estão sendo puxadas de várias galáxias devido a interações gravitacionais.
Página 31
31 Nebulosa do Anel do Sul Esta é nebulosa planetária, resultado da fase final da vida de uma estrela como o Sol. A NGC 3132, como foi catalogada, está localizada a aproximadamente 2.500 anos-luz da Terra. A estrela mais escura no centro desta cena tem enviado anéis de gás e poeira por milhares de anos em todas as direções, e o Telescópio Espacial James Webb da Nasa revelou pela primeira vez que esta estrela está envolta em poeira. fonte: www.nasa.gov/webbfirstimages
Página 32
32
Página 33
3333
Página 34
34 OBSERVANDO O CEU LOCAL: Munhoz - MG DATAS: 01/07/2022 EQUIPAMENTOS: Canon 6D, lente 24-105 f/4 AUTOR: Fernando Oliveira de Menezes Autor organizador do livro Astrofotografi a Amadora no Brasil https://clubedeautores.com.br/livro/astrofotografi a-amadora- no-brasil NEBULOSA DA BORBOLETA - NGC6302 LOCAL: Munhoz - MG DATAS: 01/07/2022 EQUIPAMENTOS: Esprit 150mm tripleto, ASI 6200mc, Montagem CEM120, 150x300”, 100x50” AUTOR: Fernando Oliveira de Menezes Autor organizador do livro Astrofotografi a Amadora no Brasil https://clubedeautores.com.br/livro/astrofotografi a-amadora-no-brasil
Página 35
35 A EPOPEIA DOS COMETAS COMET C/2017 K2 (PANSTARRS) Por Fernando Menezes C onhecidos desde os pri- mórdios da humanidade, os cometas já foram consi- derados mensageiros de bons e maus presságios. Hoje sabemos o que são, do que são feitos e seu estudo é muito importante para o entendimento da formação do Sistema Solar e, possivelmente, da origem da vida. Neste artigo vamos conhecer um pouco da his- tória sobre este interessante cor- po celeste. Um intruso no céu Desde os mais antigos assenta- mentos humanos, a regularida- de que era observada no céu era considerada como um sinal da paz proveniente dos deuses. Era por: Rafael Cândido Jr. [email protected] através das observações que se sabiam os tempos de plantio e colheita, por exemplo. A aparição de um cometa alterava essa regu- laridade e era interpretada como uma mensagem dos deuses ce - lestes; podendo ser um anúncio de bom augúrio como um perío- do de paz, o nascimento de um herdeiro real, ou, mais comum, o anúncio de algum desfortúnio como um período de fome, seca, guerra, peste ou qualquer outro vaticínio. Duas representações renascentis- tas de um cometa são exemplos de duas visões diferentes sobre os cometas como mensageiros divi- nos. A primeira é a representação na pintura Adorazione dei Magi (Adoração dos Magos) do pintor renascentista Giotto di Bondone (1267 – 1337) na Capela de Scro- vegni, em Pádua, Itália. Conforme se vê na figura apresen- tada, tem-se na parte superior da pintura a representação de um cometa. Em 1301 ocorreu a pas- sagem de um cometa que impres- sionou a população e foi relatado pelos cronistas da época. Prova- velmente, Giotto também fora im- pressionado pela visão celeste e retratou nesta pintura o mito da Estrela de Belém, que seria a es- trela que guiou os reis magos até onde se encontrava o recém-nas- cido, como um cometa. OBJETOS CELESTES
Página 36
36 Adoração dos Magos, Giotto di Bondone, 1304-1306. Cena da Tapeçaria Bayeux mostrando as pessoas admirando a passagem do cometa e o rei Harold II e seu conselheiro preocupados com o sinal de infortúnio no céu. Outro registro muito interessan- te está em um imenso tapete bor- dado do século XI que descreve os eventos que levaram à Batalha de Hastings na Inglaterra, na qual Guilherme II da Normandia con- quista a Inglaterra. Esta peça, denominada Tapeça- ria Bayeux, pois foi redescoberta em 1729 na Catedral de Bayeux, França, mede 70 metros de exten- são por meio metro de largura e apresenta 60 cenas cada uma com um título em latim. Uma das ce- nas tem como título: ISTI MIRANT STELLA; uma forma abreviada de latim para: Estas pessoas se mara- vilharam com a estrela. Vê-se no lado esquerdo da fi gura as pesso- as impressionadas observando e apontando para um cometa, con-
Página 37
37 siderado um sinal de vitória para o rei normando Guilherme II e de derrota para o rei Harold II dos an- glo-saxões. A aparição deste cometa se deu em 1066, um pouco antes de ocor- rer a Batalha de Hastings, uma das batalhas mais importantes da His- tória da Inglaterra. Os registros mais antigos Os registros chineses sobre co- metas são os mais antigos, deta- lhados e precisos que existem, abrangendo grande parte da An- tiguidade e toda a Idade Média, abrangendo quase 3 milênios de observações. Até o momento, a observação mais antiga confirma- da é de 613 AEC (antes da Era Co- mum). Estas observações conti- nuaram até o início do século XIX, quando a China entrou em deca- dência (este período é denomina- do no país como século da humi- lhação). A passagem dos cometas era re- gistrada com uma acurácia que não tinha equivalentes no mundo antigo, só havendo registros equi- valentes em precisão na Europa após o século XVI e, sob certos as- pectos, só nas observações do iní- cio do século XX. O grande interesse chinês, entre- tanto, era astrológico. Ou seja, para a civilização chinesa da épo- ca, era importante ter informa- ções detalhadas sobre os come- tas para poder realizar previsões sobre colheitas, sucessão dinásti- ca, guerras, paz, doenças, comér- cio, secas e cheias de rios. Com isso, os registros chegavam a ter anotações sobre a variação da posição do cometa ao longo de uma noite e por noites seguidas, o que mostra que havia um traba- lho conjunto de vários observado- res em diferentes localidades do território. Ao serem redescober- tos e reavaliados no final do sécu- lo XX, estes registros permitiram aos astrônomos atuais o cálculo de elementos orbitais para mui- tos cometas. É notável que estes registros forneceram dados até mesmo da variação da órbita de cometas acompanhados na atu- alidade, tarefa impossível de ser realizada utilizando apenas os da- dos obtidos do século XVI em dian- te pois ocorreram alterações orbi- tais em alguns cometas devido à aproximação com a Terra ou com o Sol (o cometa Halley, por exem- plo, teve uma alteração orbital em sua passagem muito próxima à Terra no século IX). É também importante destacar o nível de detalhamento nas des- crições dos cometas. Os chineses usavam várias expressões como estrela faiscante, estrela-vassou- ra, estrela longa, estrela veleiro, estrela luz de vela, entre outras; enquanto que na Europa, a pala- vra latina cometa, proveniente do grego kométes, significava cabelo comprido e se aplicava a todos os cometas, indistintamente. Estas diferentes palavras em chi- nês antigo estão relacionadas às diferentes vistas das caudas dos cometas, havendo inclusive um re- gistro manuscrito de tinta nanquim em seda do século II AEC encontra- do no sítio arqueológico de Mawa- ngdui, em Changsha, província de Hunan. Nesta peça arqueológica, também está registrado que a cau- da destas estrelas sempre aponta- va a direção oposta ao Sol. Manuscrito astrológico do século II AEC apresentando 7 tipos de cometas de um total de 29 definidos em outras partes do artefato.
Página 38
38 Grandes cometas A maioria dos cometas não são brilhantes o sufi ciente para serem vistos sem o uso de instrumentos, ou seja, a olho nu. Geralmente passam no Sistema Solar interior e são detectados apenas por as- trônomos utilizando equipamen- tos. Entretanto, ocasionalmente um cometa pode ter um brilho in- tenso o sufi ciente para ser visto a olho nu e, mais raramente, apre- senta-se com brilho maior que as estrelas mais brilhantes. Há vários fatores que infl uenciam no brilho de um cometa. Em rela- ção ao núcleo são importantes seu tamanho e sua atividade (o quan- to de material é ejetado forman- do a cauda), proximidade com o Sol e também proximidade com a Terra. Em geral os grandes cometas são denominados pelo ano em que apareceram (e ao longo da His- tória foram muitos). Aqui vamos comentar alguns dos grandes co- metas observados antes de 1680 (ano a partir do qual ocorreu uma mudança signifi cativa no entendi- mento sobre cometas): Grande cometa de 44 AEC: Tam- bém denominado de cometa Cé- sar, foi observado em julho de 44 AEC por 7 dias logo após o assassi- nato do general romano Júlio Cé- sar, sendo classifi cado como um sinal de sua divindade. Conforme registros chineses, foi observa- do até mesmo durante o dia, es- tima-se que tenha alcançado uma magnitude aparente de -4, ou seja, tão brilhante como Vênus. Foi um dos cometas mais famosos da An- tiguidade. Grande cometa de 1106: Ob- servado de fevereiro a março de 1106, há registros confi rmados deste cometa em Gales, Inglater- ra, China, Japão, Vietnã e Espanha. Além do intenso brilho, todos es- tes registros confi rmam que hou- ve a formação de dois cometas, ou seja, ocorreu a fragmentação do núcleo cometário formando dois cometas distintos. Grande cometa de 1556: Apa- receu durante a quaresma deste ano, ou seja, durante os 40 dias que antecedem a Semana Santa. Os registros europeus da época citam que o cometa atravessava todo o céu e sua cor era averme- lhada. Este cometa foi também denominado de cometa Charles V que foi Imperador do Sacro Im- pério Romano-Germânico e, por suas conquistas militares e he- ranças, foi também Arquiduque da Áustria, Rei da Espanha (Caste- la e Aragão), Rei da Itália, Duque da Borgonha e Senhor da Holan- da; além de várias possessões na Europa e colônias na América. Por tantos territórios, declarava-se que em breve seria o monarca ab- soluto de toda a Europa. Entretan- to, conforme os relatos da época, fi cou totalmente aterrorizado ao observar o cometa, que conside- Cometa de 1577, observado em 12 de novembro sobre a cidade de Praga. Gravura de Jiri Daschitzky.
Página 39
39 rou como um sinal divino. Assim, severamente transtornado, abdi- cou de todos os seus títulos de no- breza, da sua riqueza e de conta- to com familiares e foi viver como um simples monge no Monastério de Yuste, Espanha, onde ficou até sua morte. Grande cometa de 1577: Este co- meta foi visível no final do ano e foi registrado por dois grandes astrô- nomos da época, o dinamarquês Tycho Brahe e o árabe otomano Taqi ad-Din. Através de suas ob- servações, Brahe foi o primeiro a confirmar que os cometas viaja- vam acima da atmosfera da Ter- ra (até aquele momento histórico, muito consideravam que os co- metas eram simplesmente fenô- menos atmosféricos). As observa- ções de ad-Din foram as primeiras a serem acompanhadas através do uso dos primeiros relógios as- tronômicos mecânicos, também criados por ele. 1682, o ano da virada Em 14 de novembro de 1680, o astrônomo alemão Gottfried Kir- ch descobriu, através do uso de um telescópio, um cometa que se tornaria um dos mais brilhantes do século XVII, sendo visível inclu- sive durante o dia e tendo uma enorme cauda. Sua observação durou até 19 de março de 1681, quando deixou de ser visto. Este cometa foi denominado Grande cometa de 1680, ou também, co- meta Kirch. Este cometa foi tão espetacular que vários astrônomos registra- ram posições e tempos no céu. Além de Kirch, destaca-se o tra- balho do padre jesuíta espanhol Eusebio Kino, que observou o co- meta em Cádiz (e posteriormente publicou um tratado sobre este cometa na Cidade do México, sen- do o primeiro livro de Astronomia escrito por um europeu e publica- do na América); e os registros re- alizados pelo primeiro astrônomo real, John Flamsteed. As medidas obtidas por Flamste- ed foram revisadas para a publica- ção de um anuário. O revisor es- colhido foi um jovem assistente de Flamsteed chamado Edmond Hal- ley. Pelo seu trabalho meticuloso nesta revisão, Halley foi promovi- do de assistente para astrônomo responsável pelos registros das observações. Em setembro de 1682, Halley rea- lizou uma série de observações de um outro cometa que, apesar de não ser grande, também teve sua passagem minuciosamente regis- trada. Ao analisar os dados de po- sição deste cometa no céu, Halley percebeu que os parâmetros as- tronômicos deste cometa recém- -observado eram muito próximos aos obtidos para um cometa ob- tido em 1607 e outro cometa de 1531. Assim, Halley descobriu que os co- metas de 1531, 1607 e 1682 eram o mesmo cometa e que provavel- mente este retornaria em 1758, porém ele não o veria pois teria a idade de 102 anos. No ano do esperado retorno, aquele come- ta descrito por Halley reapareceu conforme era esperado e as me- didas de seus parâmetros orbitais mostraram que era o mesmo co- meta. Desse modo, como justa ho- menagem, o cometa foi nomeado Este cometa foi tão espetacular que vários astrônomos registraram posições e tempos no céu. Edmond Halley (1656 – 1741). Retratado por Richard Phillips, provavelmente em 1720.
Página 40
40 de cometa Halley. Com isso, ao se avaliar a periodi- cidade do cometa Halley, além de prever em quais anos ele reapa- receria, foi verificado quais apari- ções do passado seriam o come- ta Halley. Além de verificar que os grandes cometas registrados por gregos e romanos em 87 AEC e 12 AEC eram o Halley; foi surpreen- dente aos astrônomos da época descobrirem que o grande come- ta de 1066 (da Tapeçaria Bayeux) e o de 1301 (possivelmente visto pelo pintor Giotto) eram o Halley. Portanto, apesar de antes de Ed- mond Halley terem existido astrô- nomos que estudavam cometas e registravam detalhadamente suas aparições (astrônomos anô- nimos chineses, Paolo Toscanelli, Tycho Brahe, Taqi ad-Din, Micha- el Maestlin, entre outros), foi com Edmond Halley que se descobriu a periodicidade de determinados cometas e que estes estavam no Sistema Solar assim como os pla- netas. A partir desta descoberta, o estudo dos cometas alterou signi- ficativamente. Os caça-cometas A partir de 1758, com a reaparição prevista do cometa Halley, o estu- do sobre cometas ganhou muita força dentro da Astronomia. Mui- tos astrônomos passaram a pro- curar cometas e quando encon- travam também o nomeavam. Destacam-se os trabalhos da as- trônoma Caroline Herschel, seu irmão William Herschel (desco- bridor de Urano) e seu sobrinho John Herschel; e de outros astrô- nomos: Johann Georg Tralles, Ho- noré Flaugergues, Jean Louis Pons e Joseph Nicolas Delisle. Um destaque deve ser dado ao as- sistente de Delisle, Charles Mes- sier, que ficou responsável por analisar supostas observações de cometas. Embora Messier tenha começado na área de análise das possibilidades de um objeto celes- te ser um cometa, ele abriu as por- tas para o estudo de um outro tipo de objeto astronômico, os aglo- merados estelares. (Revista Astro- Nova, n° 17) Cometa Donati. Primeiro cometa fotografado através de instrumentos.
Página 41
41 No início do século XIX, o grande cometa de 1811 teve grande influ- ência entre as pessoas não vincu- ladas à Astronomia. Como exem- plos tem-se a obra literária Guerra e Paz do russo Lev Tolstói, na qual descreve a cena de um persona- gem observando um cometa e fazendo referências à derrota de Napoleão na Rússia (como se o co- meta fosse também um sinal divi- no) e também foi citado no livro Os Miseráveis, do escrito francês Vic- tor Hugo. Pela primeira vez, houve uma produção comercial vincula- da à aparição de um cometa (o que chamaríamos hoje de merchandi- sing). Produtores de vinho france- ses passaram a vender o Vin de comète (vinho do cometa), dizen- do que as uvas haviam sido colhi- das e fermentadas sob a luz do co- meta. E estes vinhos franceses da safra de 1811 alcançaram preços elevados nos anos subsequentes. Porém, em relação a avanços cien- tíficos, o grande cometa subse- quente, de 1819, foi o primeiro a ter sua luz analisada por polarime- tria pelo astrônomo francês Fran- çois Arago. E o grande cometa de 1858, também chamado de Come- ta Donati, por ter sido descoberto pelo astrônomo italiano Giovan- ni Battista Donati, foi o primeiro a ser fotografado. Como não ha- viam filmes fotográficos na época, o negativo da foto foi realizado em uma chapa de vidro. O grande cometa de 1874, deno- minado Cometa Coggia, foi des- coberto pelo astrônomo francês Jérôme Eugène Coggia no Obser- vatório de Marselha. Visível en- tre maio e julho, foi o primeiro cometa a ser obtida uma análise espectrográfica, ou seja, a partir da luz do cometa foram avaliados os elementos que o constituem. Para esta tarefa, vários observa- tórios europeus foram mobiliza- dos, criando uma cooperação en- tre pesquisadores de diferentes nações, destacando-se a atuação dos astrônomos William Huggins e Joseph Lockyer (Inglaterra), Char- les Joseph Wolf e George Antoine Rayet (França) e Angelo Secchi (Itá- lia). Estudo dos cometas É no século XX que o estudo dos cometas se aprofunda sendo não apenas observacional e para ob- tenção de dados de órbita, mas também da análise da constitui- ção dos cometas a partir da es- pectroscopia. A parte sólida do cometa é deno- minada núcleo e é um amálga- ma de rocha, poeira e gelos. Sim, gelo no plural, pois além de gelo de água são também encontrados gelo de amônia, gelo de metano, gelo de monóxido de carbono e gelo de dióxido de carbono (que é denominado comercialmente como gelo seco). Esta composição deu aos cometas a descrição de “bolas de gelo sujo”. Além dos gelos citados, os come- tas contêm substâncias orgânicas como metanol, formaldeído, cia- neto de hidrogênio, etano, etanol e moléculas orgânicas mais com- plexas como hidrocarbonetos de cadeia longa e aminoácidos. Ao entrar no Sistema Solar inte- rior, ocorre o aquecimento da superfície do núcleo do cometa e os gelos que o constituem so- frem sublimação. Outro fenôme- no que ocorre é que os materiais voláteis incrustrados no amálga- ma do núcleo, que antes encon- travam-se em estado sólido devi- do à baixa temperatura, também evaporam, fazendo a superfície do núcleo liberar gases de forma contínua, porém com baixa pres- são. Ou seja, a imagem recorrente de gêiseres de vapor saindo do nú- cleo de um cometa quando este se aquece raramente se aplica. Quando um cometa está em rota de aproximação ao Sol, ao se al- cançar a distância de 4 unidades astronômicas (4 UA) em relação ao Sol (um pouco menos que 600 milhões de quilômetros) ocorre a ejeção de gases, materiais voláteis e poeira na forma de uma atmos- fera extremamente fina em torno do núcleo do cometa denomina- da coma. O tamanho do núcleo cometário
